A mulher da malinha de mão!

Este texto merece uma breve introdução; especialmente por fazer parte do novo projeto #vidadescrita, ainda em processo de criação.

Há tempos sou apaixonado por histórias de pessoas comuns, como eu e você, desejando descrever aquilo que Eliane Brum poeticamente pôs no título de seu livro: “A vida que ninguém vê”. Esta vida descrita é o que pretendo trazer para minha vida de escrita!

O texto a seguir é muito mais que um primeiro experimento, ele faz parte da minha própria biografia, a história que escrevo todos os dias.

Boa leitura!


Ovelhas negras

Costumo dizer, com certo orgulho, que sou filho de duas “ovelhas negras”: minha mãe por ter se casado com um rapaz de 18 anos, já com problemas com a bebida; e meu pai por ter problemas com a bebida desde muito jovem, e ainda por se casar com uma mulher 4 anos mais velha do que ele, isso em 1971. Em alguns lugares do mundo até se podia estar em pauta alguma forma de “revolução sexual”; mas na pequena cidade de Blumenau, em Santa Catarina, ainda era motivo de “exílio” social.

Sempre acreditei que foi por conta disso que mantínhamos uma certa distância no contato com os parentes; dessa forma, no meu imaginário infantil o mundo dos adultos se dividia em apenas dois grandes grupos: minha mãe e pai, e as tias e tios; afinal até mesmos as professoras do jardim de infância eram chamadas tias naquela época. Eu imaginava que tinha a maior família do mundo! E ela cabia todinha no bairro do Garcia.

Tudo mudou no início de 1987. Helena, minha mãe, estava grávida de Rodrigo, terceiro filho que nasceria em março; as complicações de saúde durante a gravidez, atenuadas pelo falecimento de minha avó materna, Paulina, fez com que tivéssemos que morar na casa de Cotinha, minha avó paterna. Foi naquele momento dessa minha história, ali com apenas 7 anos, que eu conheceria aquela personagem que eu só compreenderia hoje, aos 41 anos.

A Casa Museu

A casa era diferente, como se fossem duas casas debaixo do mesmo teto! Havia uma grande cozinha, com uma mesa para as refeições, uma sala de assistir televisão, e os quartos, todos lugares por onde se podia circular, sem correr, é claro! Já a “outra casa dentro da casa” incluía uma grande sala, com uma mesa de jantar e sofás onde não se podia sentar, pequenos armários que guardam jogos de jantar e louças muito finas, além da vitrola que ouvi tocar apenas uma ou duas vezes; e no final da parede da sala, a porta que dava acesso ao quarto de minha avó, com seus móveis pesados e escuros, talvez de antes do divórcio. Uma penteadeira dominava um canto daquele vestíbulo, com pequenos frascos de perfume antigos, uma latinha de pomada Minancora (que curava tudo), um frasco rosa de Leite de Rosas, um ou dois rosários, além de muitos santinhos diferentes que traziam orações na parte detrás. Fixado na parede, logo acima da longa cabeceira da cama, um quadro com a imagem de Bom Jesus de Iguape, que por anos me amedrontou com aqueles olhos serrados em dor, com a coroa de espinhos e as mãos amarradas.

A casa do Zendron.

O lugar mais alegre da casa, para mim, sempre era a varanda; num estilo comum para as casas do bairro, trazia dois lados da cobertura fixos à estrutura da casa, e uma das pontas era sustentada por três sarrafos grossos que serviam para as brincadeiras, quando Cotinha não nos mandava parar de ficar pendurados ali!

Lembro de um passeio da escola ao Museu da Família Colonial, que participei alguns anos depois; eu me peguei comparando os espaços preservados pelo museu àquela sala na casa de Cotinha. Talvez foi ali que ressignifiquei o medo que tinha daquele espaço proibido, percebendo o quanto de lembranças ela tentava proteger naquele seu pequeno santuário; quem saberia dizer as memórias de uma época menos austera e mais feliz poderiam conter aqueles objetos, sofás e cristais.

Foram dois meses morando naquela casa, e sendo cuidado por ela; não da maneira como talvez você imagine uma avó cuidando dos netos.

A seriedade em pessoa

Cotinha, como eu a chamava, imitando os adultos, era muito séria, ordeira, mantendo-se em movimento o tempo todo, “trabalhando” como avó o dia inteiro, sem descanso, como se ainda estivesse num ambiente industrial. Anos depois eu ouviria as histórias do tempo em que ela havia sido cuidadora na creche para filhos dos funcionário da empresa Souza Cruz, na Rua Amazonas, ali mesmo no bairro Garcia; imaginava ela, como numa linha de produção, dando banho, trocando fraldas, alimentando e pondo para dormir dezenas de crianças, centenas de vezes ao dia! Ainda hoje é engraçado pensar quantos dos adultos que cresceram no bairro, com seus pais trabalhando naquela empresa, são também como netos de minha avó!

Depois do nascimento de Rodrigo, voltamos a nossa própria rotina, e também à casa no morro da Rua Belo Horizonte, longe da casa de Cotinha; mas passamos a visitá-la com mais frequência.

Com o passar dos anos, aprendi um pouco mais sobre ela; colhi histórias e colecionei comentários soltos pelos adultos em almoços de domingo. Aquela visão de mulher séria e forte era reforçada pela história de abandono do marido, numa época em que eu nem saberia descrever como era vista uma mulher desquitada. Mesmo sem conhecer os detalhes, afinal ninguém nunca falava abertamente sobre o ocorrido, ainda hoje penso em como deve ter sido para ela criar seus quatro filhos naquela casa da Rua Marquês de Abrantes.

Nunca ouvi sobre um outro amor; tão pouco tive a oportunidade de conhecer sua história antes de se casar, da infância ou dos sonhos; mas guardo comigo a imagem da malinha de mão.

A malinha de mão

Lembrar de Cotinha é pensar na figura ereta, de cabelo curto e um pouco grisalho, que ela dizia ser assim “mais fácil de cuidar”, a saia de brim com a camisa branca, o sapato baixo, e, é claro, a malinha de mão.

Minha primeira recordação da malinha de mão vem de quando eu tinha uns 8 anos, num daqueles almoços de domingo, a família reunida, com todos ainda sentados à mesa, menos Cotinha que já começava a cuidar da louça na pia. De repente, o telefone toca no outro cômodo; ela corre para atender, pois, como já dizia o ditado, uma ligação àquela hora do domingo não podia ser boa coisa. As duas filhas, minhas tias, correram também; mas voltaram logo depois, dizendo que tia Laura, prima de Cotinha, está com o marido no hospital. Um alarido correu por toda a mesa, enquanto eu procurava minha avó que não voltara do outro cômodo.

Passados alguns minutos, Cotinha surge na sua melhor imagem de mulher série e forte, pronta para partir, com sua malinha de mão que, juro, pela rapidez, deveria já estar pronta para o próximo chamado, cuidadosamente depositada no fundo do guarda-roupa.

Num só fôlego ela explicou o que havia acontecido, declarou que ficaria uma semana ou mais na casa de Laura para ajudá-la com tudo, e partiu para pegar o ônibus, sem nem esperar que alguém lhe desse uma carona para onde quer que fosse. Enquanto os adultos davam conta de limpar a cozinha, e as crianças corriam para o quintal livres de qualquer outra cerimônia familiar dominical, eu fiquei ali sentado na ponta do banco, pensando apenas em tudo o que deveria ter dentro daquela malinha para ela poder ficar “duas semanas ou mais” fora de casa.

É muito engraçado como aquela cena da malinha de mão parece se repetir em minhas memórias, em diferentes épocas. Demorei para perceber que para Cotinha a casa não era uma prisão, apenas um porto seguro de onde ela aguardava o próximo chamado; pois poderia ir para qualquer lugar, levando consigo apenas o mínimo, o que lhe era essencial para viver “uma semana ou mais”.

Recordo das vezes em que a vi chegar na casa de meus pais, sempre com sua malinha de mão, sem dia certo para ir embora. O mais engraçado era, depois que ela partia, ficar procurando as coisas da cozinha, pois ela guardava tudo em lugares diferentes, como em sua própria casa. Foi assim quando meu pai adoeceu, e ela chegou para ajudar minha mãe, sem data para partir.

Cotinha e Eu

Num recente, e fascinante, encontro com Yala, que argumenta ideias com a mesma graça que trama suas tapeçarias, conversávamos sobre ancestralidade e a maneira como estamos, ou não, conectados às histórias de nossas famílias, dos lugares em que nascemos, crescemos e vivemos. Deixei sua casa pensando em como eu havia me tornado alguém diferente, muito distante de qualquer outro parente que eu tenha conhecido.

Alguns dias depois deste encontro, enquanto arrumava para regressar à Casa dos Lagos, onde estou resido na zona rural de Itajaí/SC, percebi que já estava há uma semana em Curitiba, e tudo que havia levado e precisado cabia naquela única mochila em minhas mãos; foi então que me lembrei de Cotinha e sua malinha de mão!

É incrível perceber como toda sua história pode estar presente em atitudes que hoje lhe ajudam a viver de maneira ainda mais plena. Como muitas outras pessoas, sempre tive medo que o passado daqueles que me antecederam determinassem a vida que eu teria; mas hoje olho para minha vida nômade, minimalista e essencial e percebo que posso agradecer à Cotinha e a lição da sua malinha de mão.

Hoje, aos 41 anos, aprecio a lição que não poderia ter compreendido lá atrás; e me orgulho por perceber que, assim como Cotinha, posso carregar numa única mochila tudo o que necessito para estar onde for preciso, por uma semana ou mais!

E você, quais lições da sua história se refletem na sua melhor maneira de viver plenamente?

Rafael Giuliano,
orgulhosamente, parte de uma ancestralidade!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s