Por uma vida mais simples :: Afetividade

Você já percebeu o quão complicado é falar de simplicidade!? Um paradoxo, assim como a afirmação que “menos é mais”; e que sempre se prova verdadeira, no fim das contas. O fato é que a busca por uma vida mais simples não é sinônimo de “uma vida fácil”; ainda assim, a conquista de mais leveza faz valer a pena o esforço diário.

É bom lembrar que esta busca ocorre já há muito tempo; especialmente pelos filósofos que, de certa maneira, relacionavam a simplicidade com a verdade e felicidade. Marco Aurélio a procurou em suas meditações; Sêneca tentou explicá-la em suas cartas a Lucílio; Epiteto a buscou no seu questionamento de como viver uma vida plena, uma vida feliz?; isso para citar apenas os estóicos (dos quais me sinto mais próximo).

O mundo anda bastante complicado, você sabe; e contradizendo toda literatura de autoajuda, e vídeos de gurus (estou me segurando para não dizer coaches), querer NÃO É (necessariamente) poder. Entretanto, acredito que existam, sim, atitudes que podemos cultivar, num esforço diário por uma vida mais simples; por isso, reunindo minhas melhores intenções e experiências, compartilho e proponho aqui aquelas que têm sido as minhas próprias atitudes…

Experimente SE EXPOR, ao invés de JULGAR

Você já deve ter tido a experiência de ouvir um desabafo; percebeu como é comum a pessoa falar muito mais das outras, do que fizeram ou disseram, e muito pouco de si mesma, como se sentiu, ou se sente, naquele momento? Alguns diálogos são assim, parecem até um jogo de tênis, onde os dois jogadores se preocupam apenas em rebater a bola (no caso, os argumentos), devolvendo para o outra pessoa com a maior força possível!

Mas vamos deixar as analogias esportivas de lado e falar de um exemplo mais concreto, como a discussão entre um casal. A primeira pessoa critica o comportamento da outra; em sua defesa, a pessoa “acusada” (é como ela se sente) justifica sua ação apontando uma atitude daquela que a acusa; a primeira se esquiva da “participação no problema” e aponta o que a outra “precisa mudar”; esta diz que pode até mudar, se a primeira mudar também… Pronto, temos um ciclo vicioso de julgamentos e acusações formado, do qual é difícil sair; o torna qualquer relação de convivência muito complicada.

Ao sentir a necessidade de pedir que alguém mude seu comportamento comigo, busco me expor, dizendo a outra pessoa como me sinto diante de sua atitude; não a julgo, nem mesmo critico seu comportamento, apenas falo como sua ação me afeta. Às vezes meu pedido, ou sugestão, é acatado, noutras vezes não; ainda assim, tenho a impressão que agir em minha verdadeira defesa, sem precisar atacar. Consigo me sentir leve, pelo simples fato de ter tido a oportunidade de agir.

Agora, quando me vejo sendo sugado para este círculo vicioso, percebendo que a outra pessoa está julgando a mim ou minhas atitudes, e tentando me dizer o que tenho que mudar, gosto de simplesmente perguntar: por quê devo mudar?; e se a resposta ainda for relacionada à crítica sobre mim, pergunto: de que maneira essa mudança fará bem a você? E a nós dois? 

Sim, sim, eu reconheço que é difícil; mas eu já havia dito a você que uma vida mais simples não é sinônimo de “uma vida fácil”. Acontece que ao perguntar o porquê, contribuo para que a outra pessoa se conecte com aquilo que ela sente, expondo-se, ao invés de falar de me julgar. E na sua exposição, compreendo melhor como eu a afeto, de maneira a escolher com intenção minha ação (segunda atitude que proponho na sequência).

Escolha sua INTENÇÃO antes da AÇÃO

Você já percebeu quantas vezes disse a alguém o que ela [a pessoa] “tem que fazer”? É tão automático que não percebemos o quão arrogantes nos tornamos nestes momentos. Projetamos sobre a outra pessoa nossas idealizações; cobrando, muitas vezes, comportamentos que nem nós mesmos temos.

Da relação entre casais e amigos, direto para os afetos dentro das organizações; trabalhei por algum tempo num projeto de mudança, dentro de uma indústria gráfica, junto com líderes e equipes. Certo dia, um líder veio até mim e perguntou como eu conseguia que as pessoas fizessem o que eu quisesse? Pensei que fosse brincadeira, até ver seu olhar de curiosidade e ansiedade pela resposta. Disse, num tom quase lúdico, que “meu segredo” se baseava em duas coisas simples: primeiro, demonstrar o quanto confio que a pessoa pode (consegue) fazer o que precisava ser feito; e, em segundo lugar, criar com ela o como realizar aquela tarefa, levantando opções e indicadores de resultado.

É comum ouvir falar de feedbacks, ou até mesmo conselhos, que focam naquilo que não deve ser feito, sem sugerir alternativas; uma mera negação, sem sugestão. Da mesma maneira como uma crítica sem proposição.

A vida, dentro e fora das organizações, pode se tornar mais simples, e as mudanças mais ágeis, quando nos perguntamos qual atitude pretendemos despertar na outra pessoa, antes de escolher as palavras ou nossa própria forma de agir. Intenção, antes da ação!

Ah, uma curiosidade, ainda a respeito do líder que me fez a pergunta: ele me contou que havia aprendido a dizer para as pessoas “não me traga problemas, só soluções”. O resultado foi que as pessoas começaram a esconder os problemas; um caso clássico de ação que faz o oposto do desejado, pois diz ao outro o que não fazer, ao invés de propor a construção conjunta de soluções.

LEVE apenas o que for LEVE

Após você experienciar expor como se sente, e escolher de maneira consciente sua intenção, é hora de seguir seu caminho levando apenas o que seja leve, para uma vida verdadeiramente simples.

Imagine que você conseguiu alguns dias para viajar e decidiu fazer uma “mochilão”, uma trilha, ou mesmo acampar; portanto, será preciso carregar com você, o tempo todo, tudo o que quiser levar. Como você montará sua mochila? Gosto de pensar na vida como um mochilão!

Lembro até hoje a emoção que senti ao ler, num dos livros de Fernanda Young, a frase: “carrego dentro de mim as cartas que li” (ou era escrevi?); até hoje penso nas carta, livros, diálogos, independente da memória, aprendi que os afetos seguem comigo, por toda minha jornada, como os itens acomodados numa mochila: alguns mais à mão, outros quase esquecidos lá no fundo, mais ainda pesando. Por isso a importância de levar apenas o que for leve.

“Mas o que fazer quando alguém coloca algo pesado na minha mochila?”, você pode me perguntar! A resposta é simples, ainda que nada fácil: o peso está no significado que você dá àquilo que as pessoas te oferecem, não no “objeto” (afeto) em sim.

Por isso, diferente da ideia de “precisar esquecer” algumas coisas, precisamos ressignificar alguns afetos para tornar a mochila, o caminhar e a jornada mais leves, por uma vida mais leve!

Rafael Giuliano,
esforçando-se, todos os dias, na árdua e prazerosa tarefa de tornar a vida mais leve!

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