Vamos falar sobre nós!?

Olá!

Algumas lições podem ser explicadas! Outras ficam melhor quando contadas numa história!

Sou absolutamente fascinado por diálogos; esta arte simples, porém nada fácil, de se conectar com uma outra pessoa, tanto para escutar quanto ser escutado. E já que o convite é para falar sobre nós, que tal nos tornarmos testemunhas oculares do diálogo entre dois amigos?

Boa leitura e reflexões!


O sol mal havia saído, parecendo meio pálido, frio. A cafeteria ainda estava vazia, exceto pelas pessoas apressadas, possivelmente atrasadas, pegando seus cafés em copos descartáveis, com certeza indo para o trabalho. Ela mal acreditava que tinha conseguido acordar tão cedo, mas precisava falar com o amigo, sempre ocupado, que tinha sugerido um café da manhã juntos.

Sentiu uma pontinha de raiva, afinal não queria precisar estar ali; só tinha marcado o café por causa da discussão, ocorrida dois dias antes, entre ela e a colega de trabalho. As palavras daquela tarde na sede do departamento ainda ressoavam na sua cabeça, como se tivesse acabado de ouvi-las. Repreendeu a si mesma por não ter dado a resposta que a colega merecia, diantes daqueles absurdos. Ali, sentada sozinha, segurando a caneca de café como se fosse a base de um taco de beisebol, ficou imaginando respostas perfeitas; frases e argumentos que tirariam o chão da outra, fazendo-a cair daquele pilar de superioridade em que ela sempre se colocava. Sentia uma satisfação ao pensar na “cara de perplexa dela”; começava até a sorrir, rindo-se com as respostas eloquentes que surgiam agora em sua mente, quando foi interrompida pela figura que havia parado em sua frente, cobrindo a luz do sol.

— Devo ter interrompido uma lembrança ótima, pelo sorriso no seus rosto — disse sorrindo, puxando a cadeira para se sentar, enquanto fazia um gesto para o garçom que parecia já o conhecer.

— Não sei se posso dizer que era uma lembrança ótima — respondeu. — Só estou muito feliz que você pode me encontrar.

— Fiquei apreensivo pela maneira como você escreveu a mensagem, por isso propus um café da manhã; afinal, mesmo com nossas agendas cheias, ainda apreciamos comer bem, não é? — disse se voltando para trás na cadeira, dando espaço para que o garçom deixasse à sua frente a grande xícara de café preto e as duas fatias de rabanada.

— Você já tinha pedido? — perguntou curiosa.

— Na verdade, tenho algumas tradições bobas, como o hábito de fazer o mesmo pedido em certos lugares. Um belo dia, numa conversa com os profissionais que atendem aqui, sobre observar hábitos e propor experiência aos clientes, alguém falou dos meu pedido ser sempre o mesmo pela manhã; desde então, quando tomo o café da manhã aqui, nem preciso pedir. Mas eles sempre me surpreendem com algo diferente, antes que eu vá embora.

— Não entendo como você se dá bem com todo mundo! — A frase saiu como um desabafo, sem um tom de uma crítica.

— Acredito que tenha mais a ver com o fato de eu me dar bem comigo mesmo, ao invés de me preocupar em me dar bem com todo mundo; afinal, todo mundo é gente demais. — Ele tomou um gole de café, como quem procura as palavras para concluir uma ideia simples. — Então, acaba sendo mais simples eu me ocupar de mim; e quando me dou bem comigo mesmo, acabo não sendo tão afetado pelos outros, seus humores, problemas e ressentimentos.

— Eu até tento cuidar só de mim, e da minha própria vida; mas tem gente que torna isso bem mais difícil. — Ela respirou fundo e, tentando segurar a raiva no tom da voz, começou a falar… — Tem essa mulher intragável, com quem sou obrigada a trabalhar no departamento…

Ele apenas a ouviu contar a extensa série de relatos envolvendo a colega, seus embates e discussões. Não esboçou qualquer tipo de reação, além do leve movimento da cabeça, em sinal de que a estava acompanhando. Depois de um tempo, que pareceu mais longo que de fato foi, ela pareceu ficar sem fôlego. Apesar do desabafo, ainda se sentia chateada e irritada.

Diante do silêncio do amigo, disse: — O que você acha disso tudo?

— Eu? Infelizmente, não posso achar nada.

— Como assim nada? Você não ouviu toda a história que acabei de contar?

— Se essa fosse uma história protagonizada pela Sônia, — disse dirigindo as duas mãos, com as palmas voltadas para cima, na direção dela — minha querida amiga, talvez eu pudesse ter algo a dizer. Mas os relatos que ouvi foram protagonizados por alguém que não conheço.

— Como assim? A história é minha… — disse ela, mas sem convicção na voz.

— Na verdade, você passou todo esse tempo falando de uma outra pessoa que, apesar de eu ter ouvido tudo com a máxima atenção, não posso afirmar que eu conheça, agora.

— Mas eu falei tudo o que ela fez contra mim…

— Sim, mas não vi a Sônia, além do papel de coadjuvante. E apesar de parecer estar sentindo raiva, você não falou de como se sentiu, ou está se sentindo, nem sequer uma só vez.

— Agora sou eu que não estou entendendo, é nada!

— Sônia, experimente por um momento tirar o foco dessa outra pessoa; então me conte o que aconteceu com você, como você se sentiu, e porque quis tanto me encontrar.

— Ah, eu precisava contar o que aconteceu! Dizer o que essa fulaninha fez contra mim.

— Bem, se era falar o que ela fez a você, já falou. Conseguiu me contar tudo?

— Acho que sim.

— E como você se sente agora? Melhor?

— Na verdade, não! — Disse com raiva.

— Eu acredito em você! Posso imaginar que não esteja se sentindo melhor; afinal de contas, como se diz por aí: “Guardar ressentimento é como tomar veneno e esperar que a outra pessoa morra”.

— De quem é essa frase?

— Isso importa? — perguntou, segurando o próprio sorriso. — A verdade é que não conhecemos o autor, ou autora; mas a frase faz bastante sentido, não faz!? Você falou dessa sua colega como se ela estivesse aqui para ouvir sua revolta.

— Mas se não era para falar disso, o que eu vim fazer aqui?

— Talvez ainda não esteja claro que você quer, precisa e merece, sim, falar, desabafar; mas sem falar de uma outra pessoa. Vamos falar sobre você, eu, sobre nós! Posso começar por mim?

Sônia ficou vermelha, percebendo que não havia nem mesmo perguntado como estava o amigo! — Claro, comece por você! Como você está?

— Estou bem; nada a reclamar! Às vezes me sinto um pouco mal, quando não consigo cumprir um prazo ou sou criticado por não ter atendido à expectativa da outra pessoa; nessas horas eu trago para mim apenas a responsabilidade que me é devida, então faço o meu melhor. E essa estratégia continua funcionando bem.

Sônia ouviu, reconhecendo que havia ali uma lição para ela mesma, por mais que o amigo falasse dele, naquele momento.

— Sua vez, Sônia! Experimente falar apenas de você ou de como se sente.

— Estou triste; e no fundo irritada, mas é comigo mesma. Depois de dois dias remoendo a discussão que tive, percebi que foram 48 horas falando com outras pessoas, ao invés de falar com quem eu preciso conversar. — Ela suspirou pensativa… — Só que eu já falei tanta coisa para ela, e continuo sentindo que ela não muda em nada!

— Mas agora você está disposta a “conversar”, não apenas “falar para ela”, certo?

— É…

— Então talvez você esteja começando a perceber que não se trata de mudar a outra pessoa, e sim a você mesma; seu jeito de lidar com a outra pessoa, ao invés de tentar mudar o comportamento do outro.

— Você fala como se fosse fácil. — Disse, sorrindo pela primeira vez.

— Fácil, fácil, não é! Porém, vamos admitir, é simples; o que torna tudo ainda mais desafiante. Mas uma coisa é certa: aprender a falar de si, e conversar com o outro, ao invés de apenas falar o que se quer, faz com que todos nós possamos nos sentir escutados.

Uma garçonete parou ao lado da mesa e depositou aqui um pequeno prato com dois macarons. — Um toque de framboesa e morango, para deixar o dia de vocês mais doce, Khalil. — Então partiu na direção de uma outra mesa.

— Isso é tudo por se dar bem consigo mesmo, Khalil?

— Sônia, quando se é um bom amigo de si mesmo, torna-se simples respeitar as outras pessoas como elas são; e quando conseguimos isso, o respeito volta para você.

— É, às vezes com uma boa dose de admiração.

* * *

Os dois se despediram na calçada. Khalil seguiu caminhando para o próximo compromisso, levando consigo apenas seu caderno de anotações e um guarda-chuvas. Sônia aguardou pelo carro que havia chamado.

Quando entrou, olhou os olhos do motorista pelo retrovisor e ouviu com surpresa a pergunta: — A senhora prefere ouvir música ou ficar em silêncio?

Sônia olhou pela janela, e de volta ao motorista disse: — Vamos falar sobre nós!?

Experimente ser a protagonista da sua própria vida, e das histórias que compartilha com as outras pessoas! 

PS #1: Algumas lições são simples; nem por isso são fáceis! Então, melhor experimentar novas formas de se conectar ao seu melhor!

PS #2: Se sua curiosidade, ou inconformidade, foi despertada, entre em contato!

Rafael Giuliano,
buscando sempre se conectar à outra pessoa, no seu aqui e agora.

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