Armadilhas do Producionismo.

Eu poderia começar essa reflexão com um dos jargões do momento como: “em tempos de pandemia”, ou “em tempos de isolamento e home office”, ou ainda “em tempos de incertezas”; mas o fato é que já faz algum tempo que precisamos falar sobre producionismo, e a maneira como nos tornamos reféns da ideia de produzir mais, o tempo todo.

O atual cenário apenas escancarou esse dilema; em partes porque, a bem da verdade, não estamos exatamente aderindo ao modelo “home office”; a grande maioria das pessoas apenas passou a trabalhar, temporariamente, de casa. É preciso lembrar que tal mudança se deu por uma necessidade de força maior, imposta por uma questão de saúde pública. Alguns poucos, como eu, já estavam habituados, contando tanto com uma dinâmica digitalmente colaborativa quanto com ferramentas e equipamentos para realizar grande parte do trabalho, quando não a totalidade, de qualquer lugar, incluindo a própria casa; mas para a grande maioria, a mudança caiu como uma bomba.Em março, quando escrevi o texto “Home Office – Integridade e Produtividade”, abordei a fronteira imaginária entre pessoal e profissional, sugerida especialmente pela dinâmica da locomoção que fazemos entre nosso ambiente de convívio familiar e aquele onde trabalhamos; o que deixa de existir quando passamos a trabalhar de casa, mesmo que temporariamente. No mesmo artigo, falei dos desafios à produtividade, dando ênfase à autodisciplina que precisa ser exercida pelos indivíduos; mas hoje preciso falar desse producionismo que, infelizmente, vejo cada dia mais fazendo parte do cotidiano de várias pessoas.

Producionismo X Produtividade

O producionismo pode ser considerado como a antítese da produtividade, quase seu verdadeiro oposto; uma vez que a produtividade significa a busca por meios ou formas de se produzir mais, ou gerar mais valor, economizando recursos como força e tempo, ao invés de simplesmente se gerar mais trabalho, entregando muitas vezes o mesmo valor com um custo muito maior, financeiro ou mesmo humano. De maneira geral, o producionismo envolve um conjunto de ideias, iniciativas, ou políticas, especialmente nas dinâmicas organizacionais, que têm por objetivo aumentar o volume de produção; entretanto, quando estimulado de maneira inadequada, pode se tornar fonte de vários problemas difíceis de se contornar.

Se antes várias pessoas, incluindo você e eu (sim, muitas vezes), confundiam produtividade com producionismo, o imbróglio se tornou ainda maior nos últimos meses. Conversando com um colega a esse respeito, ouvi o relato da surpresa com que os gestores haviam constatado o aumento da “produtividade” de suas equipes no primeiro mês do “home office”, imposto pelo isolamento físico. Diante dos resultados, as áreas de Pessoas e Comunicação Interna decidiram agir em prol do reconhecimento, elaborando uma comunicação de parabenização. O impacto não foi bem o que se esperava.

Segundo a narrativa compartilhada comigo, logo após o envio da mensagem foi captada na “Rádio Peão” (palavras dele) uma pequena insurgência, a micro-rebelião manifestadas nos grupos de conversas privadas ganhava proporções dantescas, desde desabafos sobre os desafios de trabalhar em casa com filhos, companheiros, pais e ainda todos cuidados com a pandemia, passando pela falta de apoio em relação aos equipamentos, acesso remoto aos sistemas de informação, e até a internet deficitária em várias localidades. Disparado o sinal amarelo, decidiram realizar uma pesquisa para ouvir as pessoas.

A pesquisa revelou diversos medos que as pessoas sentiam, como perder o emprego ou serem mal avaliadas por estarem distantes, sem o contato direto com seus gestores. As notícias relacionadas à paralisação da economia também contribuíram para que muitas tentassem ao máximo “mostrar trabalho”, na tentativa de se tornarem “mais necessárias” ou até “insubstituíveis”. Entretanto, o custo dessa “produtividade” demonstrou ser muito maior que os benefícios, colocando a saúde física e emocional das pessoas em risco.

Mas, como comentei logo no início, o producionismo não é um assunto de hoje. Há alguns anos acompanhei uma iniciativa de reconhecimento informal das pessoas que se “dedicavam mais”, trabalhando depois do horário, por exemplo. O que antes parecia a certeza do aumento na produtividade no médio prazo gerou apenas um crescimento no custo de horas extras; e para piorar, quando estas [horas extras] foram cortadas, impedidas de serem realizadas, descobriu-se que a produtividade havia caído, e as pessoas já não conseguiam entregar o mínimo durante suas horas convencionais de trabalho.

Outro péssimo exemplo pode ser observado nas produções acadêmicas. Universidades e centros de pesquisa costumam estimular a competitividade entre seus pesquisadores, valorizando ou impondo que se publique um número cada vez maior de artigos científicos, apresentando os resultados de suas pesquisas como indicador de “produtividade acadêmica”; o que impacta nos apoios de financiamento ou reconhecimento dentro e fora das instituições. Esta conduta, orientada pelo producionismo, só faz aumentar comportamentos como a competição por atenção e/ou financiamento, o declínio do compartilhamento livre e aberto de informações e métodos, a sabotagem por parte de um cientista na impossibilidade de uso de seu trabalho por outros; interferências nos processos de revisão por pares, deformação de relacionamentos e condutas de pesquisa descuidadas ou questionáveis. Este é o cenário descrito no excelente artigo “A epidemia de más condutas na ciência: o fracasso do tratamento moralizador”, escrito por Marcos Barbosa de Oliveira (recomendo MUITO a leitura!!!).

Mas a maior e mais perigosa armadilha do producionismo não se limita ao ambiente de trabalho ou acadêmico; o risco está na maneira como nos tornamos reféns da ideia de produzir mais, o tempo todo de nossas vidas.

Por uma Vida menos Producionista

“Vivemos tempos estranhos”, já dizia uma grande amigo com quem me correspondo há algum tempo. Numa das últimas “cartas digitais” (vulgarmente chamadas de e-mails), compartilhei com ele uma cena que me pareceu estranha, mesmo sendo comum para muitas outras pessoas: sentado no café de uma cidade turística fora do país, contemplando a arquitetura do lugar, ouvi um casal próximo discutindo a lista dos lugares que ainda tinham que visitar; a discussão estava quase evoluindo para uma briga quando eles se levantaram e saíram apressados para pegar algum meio de transporte. As férias deles, ou ao menos a passagem por aquela cidade, parecia ter uma série de metas a serem cumpridas, pelo que pude perceber.

É dessa maneira que me parece a vida de muitas pessoas, especialmente nos dias de hoje; é como se o isolamento fosse o “Santo Graal”, a última oportunidade de ler, assistir, aprender, cozinhar e comer tudo que consta de uma interminável lista de desejos postergados. As conversas mais recentes parecem girar em torno das “maratonas” de séries ou filmes, das horas passadas em frente ao computador ou celular em cursos online, ou do número de páginas lidas. Entretanto, mesmo diante de todos esse volume de série, filmes, cursos, páginas ou quilos adquiridos, parece haver poucas mudanças postas em prática.

Presas à cultura do producionismo, um crescente número de pessoas passaram a criar para si próprias a obrigação de produzirem mais, inclusive nas atividades de lazer, nos relacionamentos afetivos ou na prática de seus esportes prediletos; alimentam uma competitividade que as fazem manter o foco na quantidade das “conquistas”, ao invés da qualidade das experiências per se. Pouco deve importar, tanto a você quanto a mim, se este nosso comportamento é ou não mero reflexo daquilo que vivemos nos nossos ambientes de trabalho ou estudo acadêmico (ou pior ainda para quem estuda e trabalha na academia); o fato é que precisamos, e merecemos, rever a maneira como nos realizamos; começando pelas atividades que nos são mais prazerosas, a fim de, quem sabe, levarmos para as organizações uma visão cada dia mais humana sobre o que realmente pode significar um trabalho e vida produtivos.

“Ainda discutimos se trabalhamos muito ou pouco, quando precisamos mesmo é dar atenção ao quanto e com que qualidade nos realizamos.”

Rafael Giuliano,
buscamos aumentar a produtividade, sim; mas sem perder valor de cada experiência!

PS #1: A busca pela produtividade precisa começar pela potencialização dos talentos, não pela simples tentativa de suprimir gaps, individuais ou de equipes

PS #2: Se sua curiosidade, ou inconformidade, foi despertada, entre em contato!

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