O Paradoxo do “Conflito pela Fuga do Conflito”.

Diante de tantos embates que alimentam discussões acaloradas, e influenciam o rompimento de relações afetivas, inclusive familiares, eis que surge o paradoxo do “conflito pela fuga do conflito”. Algo aparentemente contraditório que, impulsionado pela senso comum de que todo conflito é negativo, desencadeia respostas e reações negativas, às vezes até violentas, exatamente com a justificativa de “não ter mais briga”.

Comecei a observar este comportamento em diversos grupos, especialmente no período pré-eleições de 2018. Em encontros de amigos, almoços de família ou na hora do cafézinho no escritório, quando uma divergência de opiniões ou posições aparecia nos diálogos, uma “voz apaziguadora” costumava lançar jargões como “deixa disso”; “do que adianta discutir isso agora”; ou “vocês são amigos/família, por que brigar?” Mas com o passar do tempo essas “vozes apaziguadoras” assumiram tons diferentes; por vezes impondo uma “solução definitiva” para “encerrar o assunto”, ou mesmo ameaçando uma ou mais pessoas envolvidas na discussão para “acabar com essa briga de vocês”.

Para compreender este paradoxo, antes é preciso revisitar a maneira como conceituamos a ideia de conflito e ressignificar seu papel na construção do consenso, imprescindível na resolução de quaisquer disputas ou embates.

Conflito é manifestação

É comum, e faz parte tanto do senso comum quanto da interpretação da própria origem da palavra, pensar no conflito como a ausência de concordância, um desentendimento, a oposição de interesses ou opiniões entre duas ou mais pessoas. Faz sentido, inclusive, a imagem que imediatamente criamos de pessoas discutindo, ou mesmo de um cenário de guerra. Entretanto, é preciso reconhecer que o conflito só se deflagra quando ao menos uma das partes envolvidas manifesta seus interesses, opiniões/posições, ou descontentamento. É essa manifestação que dá início ao processo de diálogo, mesmo que conturbado no começo.

Costumo comparar, de maneira didática, a perspectiva que proponho acerca de conflito com a ideia de embate. Apesar das expressões serem usadas, corretamente, como sinônimos, vejo o embate muito mais como uma circunstância adversa imposta ao indivíduo; agora, quando envolve duas ou mais pessoas, percebo não uma manifestão de interesses (intencionalidade), mas o exercício de resistência, muitas vezes velada, não exposta de maneira clara, impedindo uma resolução direta entre as partes envolvidas. Numa simples analogia, o conflito é como uma guerra declarada, tal qual existe entre palestinos e israelenses, que disputam o controle de um mesmo território (seus interesses e motivações estão declarados); já o embate descreveria algo como a Gerra Fria, entre os Estados Unidos da América e a União Soviética, que se arrastou até 1991 numa luta ideológica pela influência global, com interesses obscurecidos, não declarados de maneira aberta, o que tornava ainda mais difícil sua resolução real.

Aqui é importante lembrar que tanto a Negociação Baseada em Princípios, modelo proposto por William Ury da Escola de Direito de Harvard, quanto a Comunicação Não Violenta, desenvolvida por Marshall Rosenberg, enfatizam a importância do diálogo aberto para se reconhecer as pessoas envolvidas e estabelecer os interesses comuns entre os envolvidos num conflito, a fim de se trabalhar na criação de opções e estabelecimento de critérios para se chegar à resolução. Sem uma manifestação inicial, essencial ao conflito, duas ou mais partes podem permanecer anos num embate sem a menor chance de resolução, simplesmente por não se ter iniciado o diálogo.

Dito isso, posso afirmar de maneira categórica que a maneira menos produtiva de solucionar um conflito é fugindo do conflito! E aí está a importância de não simplesmente calar quem discute; pois o conflito é parte do processo de resolução, e mesmo da cura de muitos dos nossos males sociais que nos afligem hoje.

É preciso ouvir (inclusive a si mesmo)

Fim do almoço de domingo. A maior parte das pessoas já se levantou e assumiu alguma tarefa como cuidar da louça ou ajudar na limpeza da churrasqueira; os mais jovens se dispersaram pelo quintal ou se isolaram, jogados nos sofás, com seus telefones celulares; apenas um casal dos tios-avós e um sobrinho-neto permaneciam sentados à mesa. Ele, estudante de enfermagem, já vinha conversando com eles desde antes da refeição, defendendo a importância de políticas públicas no apoio à saúde dos mais pobres; o casal não concordava com alguns pontos, mas seguiam numa conversa animada. O tio-avô falava e ria muito alto, parecendo às vezes estar brigando. Isso foi o suficiente para que o pai do rapaz interferrisse na conversa, gritando ao filho para que paresse de importunar seus tios e se calasse de uma vez por todas. O constrangimento fez com que todos abandossem a mesa e, pouco tempo depois a própria casa da matriarca.

Várias semanas se passaram sem que houvesse um novo encontro, pois as pessoas ainda estavam aturdidas pelo que havia acontecido; e os comentários em grupos do WhatsApp alimentavam ainda mais o sentimento de vergonha alheia e novos embates, devidamente velados.

Ouvi toda a história quase três meses depois dos fatos ocorridos; foi numa tarde de sábado, sentado na mesma mesa. Comigo estavam a anfitriã, o casal de tios, o sobrinho-neto e o pai. Pedidos de desculpas já haviam sido feitos, mas só tinham servido como mais uma forma de tentar “abafar o caso” que, sem uma resolução, seguia como uma ferida aberta.

Pedi então que cada um contasse o que estavam falando naquela hora. O tio começou a explicar a situação; eu o interrompi e pedi que apenas tentasse repetir o comentário que compartilhava no momento do diálogo. Ele precisou parar, pensar um pouco e, com a ajuda da esposa, repetiu exatamente o que estava dizendo ao sobrinho naquele dia. Então pedi ao sobrinho que compartilhasse qual havia sido sua resposta; e ele o fez de pronto. De volta ao tio, perguntei qual havia sido a reação diante da “provocação reflexiva” do sobrinho; ele levantou os braços e soltou um sonoro “má como!”. Todos riram, menos o pai. Foi quando me voltei para ele e perguntei se ele conseguia se lembrar de ter ouvido aqueles mesmos argumentos.

O pai chorou enquanto dizia não se lembrar de ter ouvido nada daquilo; sua reação de gritar e intervir tinha sido motivada apenas porque “achava que eles estavam discutindo”. Então eu disse que “sim, eles estavam discutindo um assunto, sobre o qual, inclusive, não havia ainda um consenso; mas isso não era um problema, para eles”. Ele acentiu com a cabeça. Pedi a ele que tentasse lembrar o que ele mesmo havia dito; repetiu as palavras ásperas entre lágrimas, pedindo desculpas mais uma vez, mas agora com a consciência de como ele havia afetado aquelas pessoas. Diante disso, os presentes puderam dar sequência às suas vida e relações afetivas.

Ainda tenho contato com os protagonistas dessa história. Sei que os almoços com todos reunidos ainda não voltaram a acontecer como antes, também por causa de todos os embates (não declarados abertamente) surgidos no emaranhado de grupos criados no WhatsApp. Mas aquelas cinco pessoas (a matriarca, os tios-avós, o sobrinho-neto e o pai) puderam chegar a uma resolução do conflito ao ouvirem o que de fato havia sido dito no calor da discussão.

Conversando sozinho com o pai, depois de nosso encontro, ele me perguntou qual teria sido a melhor maneira de intervir na discussão entre o filho e seus tios, caso fosse realmente necessário; disse a ele que, dependendo do quão abertas as pessoas estivessem, o melhor a se fazer é repetir o que elas dizem para que possam se ouvir e reconhecer como estão afetando umas às outras. Essa é uma das melhores estratégias de mediação para resolução de conflitos; lembrando que o mediador estimula o diálogo, não o silêncio.

O Paradoxo

Na maioria das vezes em que se tenta impedir o diálogo, ou mesmo uma discussão, num conflito já deflagrado, gera-se um segundo conflito ainda maior; uma vez que se calam as pessoas que estavam começando a manifestar suas dores e opiniões. Com essa interrupção, deixam de ser declarados (ditos e ouvidos) os interesses individuais de cada envolvido, o que torna virtualmente impossível reconhecer os interesses comuns, imprescindíveis para a construção de uma resolução consensual.

“Mas por que as pessoas se intrometem no conflito dos outros? Até entendo que alguém queira fugir dos próprios conflitos; mas daí querer se meter na vida dos outros…” Bem, é nessa contradição, levantada por um colega, que reside o paradoxo.

Talvez pudéssemos colocar a culpa nas mídias digitais que, de certa maneira, permitem que nós possamos criar hoje novas e mais elaboradas “bolhas informacionais” ou “cercadinhos ideológicos”, o que dificulta o desenvolvimento da habilidade de dialogar com o diferente. Mas é preciso chamar a atenção para algo próprio do atual espírito do tempo, e colocar um pouco do peso desta responsabilidade na atual dualidade que gera posições como: “ou você está do meu lado ou está contra mim”. Esse dualismo, somado ao excesso de informação (reais e falsas), vêm tornando nossos diálogos em exercícios exaustivos de convencimento, não mais de enriquecimento cultural.

É preciso compreender o papel do conflito na construção de relações afetivas mais maduras e, ainda mais importante, o nosso papel que precisamos assumir como mediadores nos diálogos; lembrando que um mediador não determina qual o lado está certo ou errado, nem sentencia uma solução imposta (isso pode parecer o papel dos juízes, mas esse conflito precisa ficar para um próximo texto).

Ser mediador envolve proporcionar às pessoas a oportunidade de experienciar o conflito de maneira apreciativa, de tal forma que possam falar e também ouvir, inclusive a si mesmas, para então criar uma solução consensual, ao invés de precisar escolher entre uma ou outra posição.

É sempre bom lembrar que “a conquista da razão consiste em compartilhá-la”! Calar, portanto, é o oposto de compartilhar a razão.

Rafael Giuliano,
buscando a resolução de conflitos, sem fugir dos conflitos.

PS: Os conflitos fazem parte do processo de pleno desenvolvimento das pessoas, tanto nas relações afetivas quanto de aprendizado e realização; se quiser saber mais é só entrar em contato!

2 comentários sobre “O Paradoxo do “Conflito pela Fuga do Conflito”.

  1. Pra ter diálogo e necessário que as duas partes envolvidas aceitem! O que mais vemos hoje em dia eh a imposição de ideias! Prefiro ficar no meu ostracismo com as minhas ideias do que tentar forçar um diálogo nesses dias. Meu melhor amigo para conversa hoje em dia tem sido eu mesmo. A inteligência necessária para um diálogo está sumindo na proporção que aumenta o direito de impor o pensamento, de maneira agressiva e unilateral!

    Curtido por 1 pessoa

    1. Compreendo, Regina; e considero que essa maneira agressiva e unilateral de se impor pensamentos possa continuar crescendo à medida que nos distanciamos dos diálogos síncronos, olho no olho, mantendo nossas relações de maneira digitalmente assíncrona.

      As “bolhas virtuais”, onde eu publico o que quiser e posso “cancelar” quem pensa diferente de mim, reforçam esse cenário, sem mais diálogos e com apenas publicações disparadas a esmo.

      Entretanto, fazendo o melhor uso possível do meu Minimalismo Afetivo, sigo no exercício de confrontar as pessoas com o desafio do diálogo aberto e franco, pois acredito que, como tudo na existência se resume à impermanência, esse é apenas mais um momento episódico da humanidade.

      Veja nós dois, por exemplo: nem sempre concordamos; mas nos deliciamos com os enlaces de nossos diálogos! =D

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