Escolha um hobby com propósito!

Em meio aos discursos sobre produtividade e alta performance, sugerir nas mentorias individuais que as pessoas encontrem um hobby parece até controverso. Mas releia o título com atenção, pois a proposta é que se escolha um hobby com PROPÓSITO! Sim, ainda precisamos falar sobre propósito, apesar do conceito já ter sido muito usado, e até gasto, de certa maneira. Persiste a necessidade de explorar melhor seus significados prático. Contudo, vamos começar pela ressignificação de hobby.

Quando buscamos por uma tradução simples para hobby na Língua Portuguesa encontramos a expressão “passatempo”. Entretanto, seu conceito pode ir muito além de um subterfúgio, do lazer pelo lazer; basta observar o significado dado pelos dicionários da própria Língua Inglesa: o Cambridge Dictionary diz se tratar de “uma atividade que você gosta e costuma fazer quando não está trabalhando”, e o relacionado, claro, ao “lazer”; já o Dictionary.com (que reúne três diferentes bases de conhecimento) o descreve como “uma atividade ou interesse perseguidos por prazer ou relaxamento e não como uma ocupação principal”. Essa segunda descrição, com ênfase ao “perseguidos por prazer” e “não como uma ocupação principal, oferece uma visão muito mais ampla que a mera ideia de passatempo.

Um hobby envolve paixão, dedicação, e uma boa dose de amadorismo; outro conceito que merece ser ressignificado. Quando nossas relações e realizações passaram a girar em torno do trabalho, dos papéis profissionais que desempenhamos, o amadorismo se tornou sinônimo de algo feito sem profissionalismo, com pouca ou nenhuma qualidade. Dessa forma, foi esquecido que amadorismo é a “qualidade ou condição de amador”, aquele que se dedica, sem caráter profissional, mas por amor, a alguma forma de arte ou ofício! Uma perspectiva que nos faz refletir, não é?

Alguns dirão que é preciso amar aquilo que fazemos profissionalmente, pois quem “ama o que faz não trabalha, se diverte” (autor propositalmente esquecido – rs), ou segundo o paradoxo de Confúcio: “trabalhe com o que você ama e nunca mais precisará trabalhar na vida”. Afirmações como essas, ou quaisquer outras variações que você quiser incluir aqui, fazem parte de um movimento propagandista que nos faz pensar no trabalho profissional como única forma de realização. Afirmo que essa é uma visão limitante; e olha que eu sinceramente amo meus trabalhos remunerados (de verdade).

 

Hobby e Autorrealização

Um hobby, escolhido com propósito, proporciona à pessoa experienciar novas formas de autorrealização, além de permitir explorar também suas relações afetivas e de aprendizagem. Dessa maneira, a atividade ou interesse, perseguidos por prazer, conseguem abranger as três dimensões do ser integral: Afetividade, Aprendizagem e Realização. Pode até parecer complicado no início, mas me permita expor a ideia geral.

Ao escolher uma atividade que gere prazer, você desperta algo valoroso dentro de si. Um sentimento de afeição que surge primeiro pela manifestação do seu desejo individual (sua vontade de potência), passa pelo exercício da livre escolha (um processo de autonomia e emancipação), e culmina na conexão com outros amantes da mesma atividade; afinal, é fascinante como os interesses compartilhados tornam pessoas que, por outros aspectos, poderiam ser completas estranhas em parceiras e amigas. É fácil perceber isso em trilheiros, ciclistas, montanhistas ou pescadores amadores.

O amadorismo leva você a querer aprender mais sobre a atividade que escolheu, adquirindo conhecimento sobre a história, ferramentas, equipamentos e métodos. Desencadeia aí um completo ciclo de aprendizagem, que aprimora suas habilidades individuais ou coletivas, e transforma suas atitudes em relação a tudo o que envolve, direta ou indiretamente, seu hobby, como vemos em colecionadores, ceramistas, bibliófilos ou novos aprendizes de marcenaria (como eu).

Diante das relações de afeto, somadas à aprendizagem, surgem novas realizações, seja pela superação de desafios, como a subida de picos ou montanhas, pela descobertas de objetos ou obras raras, ou ainda pela materialização de objetivos criativos ou projetos sonhados. Essas realizações, oriundas de uma atividade prazerosa, promovem o sentimento de autorrealização; pois você não apenas realiza algo (como é comum no seu trabalho), uma vez que para essa entrega você se transforma pelos afetos e aprendizagens também.

 

Analogias Criativas

Se mesmo diante de toda essa argumentação em defesa do importante papel que o hobby tem na construção de seres ainda mais íntegros, nas suas relações de afetividade, aprendizagem e (auto)realização; vamos então falar de propósito! (Hahaha, pensou que eu fosse esquecer, não é?)

É imprescindível que a atividade escolhida como hobby seja prazerosa. Isso não impede que a escolha seja feita de maneira conscientemente intencional; portanto, com um propósito. É comum, por exemplo, pessoas escolherem atividades que as tirem da zona de conforto, proporcionando aprendizagens levadas para toda vida. Outras buscam, por meio do hobby, criar novas conexões com pessoas, desenvolvendo habilidades de relacionamento interpessoal, além de todo o conhecimento adquirido no processo.

Meu propósito predileto envolve as analogias criativas. Trata-se da criação de relações entre as experiências do hobby com outros papéis desempenhados por mim no cotidiano; é como transpor os afetos, aprendizados e realizações, construídos por meio da atividade prazerosa que escolhi, para meu convívio familiar, social e profissional.

Há quem aprenda a encarar seus limites físicos e emocionais de outra maneira, diante do desafio que impõe uma montanha; como aqueles que desenvolvem novas formas de negociar uma obra rara ou item colecionável; assim como os que, assim como eu, despertam para o prazer de criar coisas novas com as próprias mãos. Todas essas pessoas têm o poder de enxergar nessas superações, aprendizagens e reconhecimentos das próprias potências, novas formas de lidar e transformar suas realidades.

Estou aprendendo um universo de novas analogias criativas, praticamente uma filosofia por detrás do exercício da marcenaria; algo que me abre os olhos para repensar minha forma de lixar o que não é essencial, de ser preciso nas medidas e não com a vida, além de valorizar a escolha das ferramentas certas para lidar com as matérias-primas que disponho no meu aqui e agora.

Desejo que você escolha seu hobby com propósito, afinal…

 

O hobby pode ser mais que uma fuga da realidade; ele pode se tornar o caminho por onde reinventamos nossa realidade!

 

Rafael Giuliano,
Aprendiz de Marceneiro, filósofo da esmerilhadeira! (Hahahaha!)

 

PS: Saiba mais sobre o processo das Mentorias aqui para escolha consciente de um hobby com propósito e outras decisões!
PS2: Agora, se quiser conversar sobre suas dinâmicas de afetividade, aprendizagem e realização, entre em contato!

2 comentários sobre “Escolha um hobby com propósito!

  1. “…lixar o que não é essencial, de ser preciso nas medidas e não com a vida, além de valorizar a escolha das ferramentas certas para lidar com as matérias-primas que disponho no meu aqui e agora.” Guardarei pra vida ❤

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s