Contos Afetivos IV :: Escolhas

Àqueles que escolhem novos
significados para seu caminho.

Já havia um tempo que Celso estava diante do telefone, sentado sozinho na sala que servia como centro administrativo do campo de refugiados. Todos os outros estavam cuidando dos preparativos para o jantar, e a coordenadora havia dado a ele aquela segunda metade da tarde para pensar e se decidir sobre o que faria a seguir.

Nas paredes ao seu redor, onde não haviam prateleiras com pilhas de documentos, fotos cobriam todos os espaços; registros refeitos por uma voluntária, desde o início do projeto. Ele via a si mesmo em várias delas; e reconheceu sua própria jornada, observando as diferentes atividades que já tinha desempenhado ali. Junto às mais recentes, uma foto dele com a avó, distribuindo a sopa do almoço num dos cinco dias em que ela havia trabalhado como voluntária ao seu lado. Desde aquela visita, há um mês, ele não conseguia parar de pensar na frase que Expedita tinha lhe dito, e na decisão que precisava tomar.

Tomou coragem, tirou o telefone do gancho e discou os números com rapidez. De repente, fez uma expressão de dúvida, pensando ter errado ou esquecido o número da casa de seus pais. Enquanto ouvida o sinal da chamada sendo completada, pensou que ainda não tinha certeza do que diria a mãe e ao pai; então alguém atendeu.

— Departamento de Direito, Daniele, boa tarde. — Ele realmente havia digitado números diferentes, mas não por mero esquecimento; havia ligado para a universidade de maneira automática. — Alô?

— Ãh, alô. Desculpa; o Professor Carvalho está disponível no momento?

— Quem deseja falar com ele? — A voz era direta, quase arrogante.

— Por favor, diga a ele que é Celso, o “Aprendiz de Herói”. — Precisou segurar a riso, mas teve medo que a secretária nem se desse ao trabalho de lhe dar atenção; entretanto, a voz rígida apenas pediu um momento e o colocou em espera.

“Aprendiz de Herói” foi como o Professor Carvalho havia se referido a Celso, quando ele informou a repentina decisão de largar o último ano da faculdade para se dedicar ao trabalho voluntário no campo de refugiados, onde já havia passado as férias. A conversa havia sido um pouco dura, afinal Mestre Carvalho, como os entusiastas da área de Direitos Humanos o chamavam, acreditava não ser uma boa ideia aquela interrupção nos estudos; especialmente porque Celso era seu orientando, e fazia parte de um grupo de estudos importantes na universidade. Além disso, receber a notícia por telefone não o havia agradado.

Agora a confusão nos números de telefone fez todo o sentido; era com o Mestre Carvalho que ele precisava conversar. Entretanto, para a mãe e o pai já havia algo ensaiado, mas nada em relação ao que dizer ao seu antigo professor. Seus pensamentos foram interrompidos pela grave voz ao telefone.

— Olá, Aprendiz de Herói — disse a voz numa forma acolhedora, como se fosse mais a voz de um velho amigo que do professor.

— Olá, Mestre Carvalho — disse Celso ainda tímido, com receio que lhe faltasse a voz a qualquer momento.

— Devo admitir que saber de sua ligação me causou certa surpresa. Já faz um ano, se bem me lembro.

— Sim, Mestre; um ano desde nossa última conversa. — Celso quis fuzilar a si mesmo com os olhos! Por que falar daquela última conversa? Talvez o mestre ainda alimentasse algum ressentimento sobre aquela fatídica discussão; agora só havia uma saída aparente: pedir desculpas — Quero, inclusive, pedir desculpas.

— Desculpas? Certo; mas pelo quê? — A voz grave ainda se mantinha cordial, porém Celso não esperava pela pergunta.

Teria o mestre esquecido todo aquele último encontro? Talvez tivesse dado pouca importância ao ocorrido; ou seria mais um teste como aqueles que ele sempre aplicava, usando a linguagem como espada e escudo, ao mesmo tempo? Celso refletiu sobre aquela tarde de um ano atrás e percebeu que sua atenção deveria estar naquele momento presente.

— Peço desculpas por não ter dado ouvidos aos seu conselhos naquele momento.

— Naquele momento? Hummm, diz isso porque agora algo mudou? Estou ainda mais intrigado.

— Sim, é certo afirmar que algo mudou. — Celso agora estava de pé, ereto como se estivesse diante do mestre defendendo uma tese; respirou fundo, sorriu e encontrou as palavras que antes pareciam lhe fugir. — Quando conversamos pela última vez, eu pensava em todos os meus privilégios como culpas ou fardos; por isso tinha vindo trabalhar como voluntário naquelas férias. Ao final dos 30 dias achei que não havia feito o suficiente, então decidi ficar.

— E agora você pensa ter feito o suficiente? Acha que merece os privilégios? — Perguntou o mestre com um tom ainda mais grave, como um juiz que pergunta aos jurados se chegaram ao veredicto de um importante caso.

— Na verdade, decidi não brigar mais com meus privilégios, nem pensar mais se os mereço ou não. Depois da visita que recebi há cerca de um mês, aprendi que o maior desafio que a vida nos impõe é dar significado a ela. Então, ao invés de esperar um sinal de merecimento, escolhi dar um novo significado aos meus privilégios.

— Vai abandonar, então, o voluntariado no acampamento de refugiados?

— Não, pelo contrário. Pretendo, se o senhor puder me orientar, retornar à universidade, concluir meu curso em Direito e então contribuir ainda mais com os refugiados, usando minha formação e conhecimento; quem sabe, contando ainda com o apoio de um Mestre em Direitos Humanos — disse Celso, sorrindo; deixando suavizar sua voz, como quem se liberta de algo que lhe pesava o peito.

— Então, você descobriu que o maior desafio que a vida nos impõe é dar significado a ela? — disse o mestre sem esconder a alegria na voz. — E qual significado você escolheu dar a ela?

— No momento? Escolho servir às pessoas com tudo o que eu tenho ao meu alcance. Isso inclui uma excelente educação. Terei orgulho de ainda servir os almoços, e ainda revisar os processos e documentos para acessos aos direitos civis dessas pessoas em nosso país.

— Certo, meu jovem. Eu o vejo em três semanas, quando se iniciam as aulas. Despeço-me, cordialmente.

O telefone ficou mudo; depois o som contínuo, apontando que a ligação havia chego ao fim. Celso olhou para as fotos e começou a imaginar quantas outras tiraria quando voltasse em um ano.

 

*  *  * 

 

O professor se levantou da escrivaninha, ainda com a mão sobre o aparelho de telefone, como se não quisesse perder a conexão com o diálogo que havia acabado de ter. Tomou um bloco de notas, escreveu o nome completo do aluno, destacou o papel e caminhou na direção da ante sala do gabinete; onde o entregou à secretária.

— Por favor, cuide para que a matrícula desse aluno seja feita, assim como a sua inclusão no grupo de estudos sobre Direitos Humanos.

— O que o senhor acha desse retorno? — perguntou a secretária, lendo o nome escrito no papel?

— Para ser honesto, não acho nada; mas acredito que será bastante significativo. — disse deixando a sala para acessar o corredor externo, então o jardim.

Caminhou por entre os sombreiros, até encontrar seu banco de estimação. Sentou-se olhando os estudantes que corriam de um lado para outro naquele fim de tarde quente. Sorriu, então lembrou da frase dita por Celso.

— É Khalil, o maior desafio que a vida nos impõe é dar significado a ela!

 

*  *  * 

 

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