Contos Afetivos III :: Compreensão

Àqueles que se esforçam
a fim de compreender.

O avião havia acabado de aterrissar, mas Expedita não tinha pressa em deixar o aeroporto, nem tão pouco para começar a viagem de carro que ainda teria pela frente, em direção ao interior. Enquanto tomava um café expresso no saguão lotado, imaginava apenas que estava muito longe de casa.

A ideia da viagem fazia parte da lista de coisas que queria fazer depois que a venda da empresa fosse concluída. Quase quatro meses separavam esse expresso daquele outro tomado na companhia de Janaina, no mesmo dia em que decidiu buscar por novos significados. Muita coisa da lista já tinha sido feita, mas nenhuma tão significativa quanto a viagem para reencontrar o neto com quem não falava há mais de um ano.

 

*  * * 

 

Depois de algumas horas na estrada, quando o calor deixava claro se tratar do meio do dia, e nem o ar-condicionado do grande carro alugado parecia ser suficiente, Expedita viu surgir as primeiras casas que marcavam o início do perímetro urbano da pequena cidade. Parou num posto de gasolina e perguntou pela organização na qual sabia que seu neto trabalhava como voluntário; a resposta foi apenas o sinal de não com a cabeça, feita pelo senhor sentado ao lado da bomba de combustível. Mas quando perguntou sobre o campo de refugiados, viu aquele  homem fechar a cara, cuspir no chão e apontar numa direção, sem dizer nada.

Ela seguiu pelo que parecia ser a avenida principal, esvaziada, repleta de lojas e outros estabelecimentos comerciais, quase todos fechados, talvez pelo horário. Cruzou o centro da cidade, passando por alguns prédios, dois condomínios cercados com casas maiores e muito bonitas; então o cenário mudou, mais uma vez, casas e comércios simples, agora com mais pessoas caminhando pela rua. Quando teve a sensação de se distanciar mais uma vez da cidade, viu as barracas e o pequeno portão que demarcava o assentamento improvisado.

Expedita estacionou o carro junto aos outros que estavam do lado de fora da área cercada. Desceu e se apresentou às duas pessoas que pareceriam montar guarda na entrada, então recebeu a orientação para procurar o refeitório. Sentia como se estivesse no cenário de algum filme de guerra, com pessoas muito humildes caminhando de um lado para outro, falando numa língua que parecia ser Espanhol, mas não conseguia compreender o que conversavam. Todos olhavam para ela, e por um momento desejou ter escolhido uma roupa mais simples para a ocasião. De repente, diante de uma imensa tenda, viu várias mesas compridas e bancos lotados por pessoas almoçando; do outro lado estava seu neto, atrás das panelas postas num mesa, servindo às pessoas. Quando ele a viu, passou a concha para outra pessoa e foi na direção dela.

— Vó? Quando me disseram que a senhora tinha ligado na ONG perguntando por mim, pensei que fosse um engano. E quando eles falaram que a senhora teria dito que viria aqui, — ele sorriu — desculpe, mas disse que com certeza eles estavam enganados e não era minha avó; devia ser a avó de outra pessoa.

— Difícil de acreditar, eu sei. Talvez você não conheça tão bem sua avó. — Expedita expressava um sorriso bobo, então completou: — Quem sabe eu mesma esteja aprendendo a me conhecer de novo.

Houve um minuto de silêncio. Celso apertou uma mão na outra, como se procurasse segurar algo dentro dele. — Eu sei que falei algumas coisas idiotas para a senhora no nosso último encontro, mas só quero dizer que… — ele foi interrompido pela avó com um abraço.

— Há um ano vi meu neto, com só 21 anos, abandonar a faculdade de direito, quase no final. — Celso quis interrompê-la, mas Expedita o silenciou pondo a mão no seu peito. — Eu não entendia o significado daquilo tudo. Para mim parecia ser só rebeldia. Mas há pouco tempo aprendi que o maior desafio que a vida nos impõe é dar significado a ela. Então, quando vendi a empresa…

— Como é? A senhora vendeu a empresa? — O rosto de Celso trazia um misto de surpresa e euforia.

— Sim, já faz quatro meses. Percebi que todo mundo na família estava escolhendo seus próprios caminhos, estava na hora de eu mesma escolher o meu.

— E desistir de escolher o caminho dos filhos e netos, né?

Expedita apenas sorriu diante da provocação do neto. Então sentiu o braço de Celso lhe cobrir os ombros, enquanto era guiada pelo labirinto e tendas e pessoas, que logo se transformou numa vila de pequenas barracas, da altura de uma pessoa. Pararam diante de uma delas, onde haviam dois bancos feitos de madeira, protegidos do sol forte pela sombra projetada por um toldo que a fez pensar numa varanda móvel. Celso indicou o banco para que ela se sentasse, entrou na barraca e saiu de lá com uma garrafa de água e dois copos. Ele se sentou ao lado da avó e retomou sua tentativa de pedir desculpas.

— Talvez a senhora tivesse razão naquela época. Talvez fosse mesmo um pouco de rebeldia, ou pirraça como dizia minha mãe. — Celso segurava o copo com as duas mãos, alternando o olhar entre o copo e o chão. — Então cheguei aqui e fiquei num hotelzinho, ali no centro da cidade, até o dinheiro acabar. Mas era tarde, não podia simplesmente abandonar o que eu havia começado aqui. Já tinha perdido a matrícula para o novo semestre, então decidi ficar. Quando o dinheiro acabou, recebi uma barraca como outros profissionais que trabalham aqui.

— Seu pai não mandou mais dinheiro?

— Não. Mas também não pedi. — Celso suspirou. — Conversamos algumas vezes por telefone, mas logo ficamos sem assunto, pois eu não estava aberto às cobranças ou chantagens. Já ele não estava interessado no que eu estava tentando descobrir aqui.

— E o que você queria descobrir, Celso? — Perguntou Expedita como quem espera ouvir uma explicação que lhe faça entender algo além da sua própria imaginação.

— Eu não sei, vó. E o mais louco foi que eu vim para cá esperando que esse trabalho voluntário me desse uma resposta, sei lá, de qual o meu papel no mundo, ou coisa parecida. Ou talvez o significado da vida. — Os dois sorriram. — Daí você me aparece aqui, e fala… como foi mesmo a frase?

— Qual? — Expedita fez a pergunta mais para si mesma. — Ah! Que o maior desafio que a vida nos impõe é dar significado a ela?

— Sim! Essa frase! Quando a senhora falou isso eu fiquei imaginando, “será que ela veio até aqui só para dizer isso? Como ela sabia que eu precisava ouvir isso?”

— E você precisava? Precisa ouvir isso?

— Talvez sim. Mas não tinha ideia dessa necessidade até ouvir essa frase de você. De onde a senhora tirou essa frase?

Expedita contou ao neto a história de como havia conhecido Janaina e ouvido a frase pela primeira vez. Também contou a história sobre a praça e as cerejeiras, do estranho sentado comendo as tâmaras e a forma professoral como pronunciara a frase para Janaina. Em meio ao vai e vem das pessoas, houve um momento de silêncio entre os dois, mas sem o constrangimento habitual de quando não se sabe o que falar. A verdade é que nada precisava ser dito; estavam apenas apreciando a companhia um do outro, e percebendo como os dois compartilhavam agora, muito mais que o vínculo parental, a história de uma frase.

— Celso! — Gritou uma jovem perto da tenda refeitório. — Você vai ajudar com o segundo grupo do almoço?

— Já tô indo! — Gritou Celso, levantando-se rápido e olhando para sua avó. — Preciso ir! Temos um segundo grupo para almoçar agora.

— Vou com você! — Disse Expedita, já de pé.

— A senhora não vai se sentir desconfortável lá no meio daquela multidão?

— Só se eu tiver que ficar parada, sem fazer nada. Com certeza deve ter algo que eu possa fazer para ajudar. Já que eu vim até aqui, quero compreender o que é isso que você sente trabalhando com essas pessoas.

— Vó, acabei de descobrir que ainda preciso, eu mesmo, dar significado para meu trabalho aqui. Não sei se a senhora vai conseguir me entender agora.

— Bobinho, quem falou em entender. Eu não preciso entender, só compreender como você se sente. E se faz bem a você, eu me sentirei bem também; e isso é compreender a vontade de alguém.

— De onde você anda tirando toda essa filosofia? — Disse Celso dando uma gargalhada.

— Oras, estou dando novos significados para minha vida. Eu nem sabia direito o que eu faria quando encontrasse você, agora vou descobrir.

— Ok! Mas antes vamos encontrar um avental para você.

Os dois se olharam e seguiram abraçados e rindo na direção da grande tenda do refeitório.

 

*  * * 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s