Contos Afetivos II :: Incertezas

Àqueles que seguem na busca.

 

De pé no centro da sala repleta de móveis antigos, testemunhas de um passado de muita prosperidade, ela dirigiu o olhar dos porta-retratos fixados na parede para a ampla janela que lhe permitia ver o pátio da fábrica. Para além daquele espaço aberto, onde transitavam caminhos carregados e pessoas em todas as direções, via-se o parque industrial, com suas altas chaminés que pareciam delimitar o próprio horizonte.

Lembrou de quando tudo aquilo não passava de um imenso terreno vazio deixado pelo pai. O primeiro escritório era então uma casinha feita de madeira muito simples, com uma máquina de escrever, um arquivo de ferro e o telefone. Daquele pequeno espaço ela comandava quatro funcionários dedicados, e via transitar o único caminhão, ainda financiado, indispensável para as entregas. 

— Anos de trabalho — disse como se desabafasse para alguém.

Sentou-se, não no seu lugar por direito, mas numa das cadeiras reservadas aos visitantes, diante da imensa mesa de trabalho. Sentia-se triste, imaginando que, talvez pela primeira vez, havia perdido uma batalha. Nenhum dos filhos desejava dar continuidade aos negócios que ela sempre imaginara ser “da família”. Cada um havia seguido um caminho diferente. Agora, o escritório de advogados que ficava na capital enviara uma advoga (mulher, a pedido dela) para orientá-la nos detalhes finais do contrato de venda da empresa. Não lhe restava mais nada, e a incerteza de como seria a vida no dia seguinte à venda causava náuseas.

Alguém bateu na porta, abriu-a e anunciou a chegada da advogada que entrou e esperou que a anfitriã lhe olhasse do pés à cabeça.

— Como se chama, minha jovem?

— Janaina.

— Você se importa de nossa conversa acontecer aqui mesmo? Preciso me desacostumar com aquela cadeira — disse apontando para cadeira do outro lado da mesa.

— Claro. Onde a senhora se sentir mais à vontade — disse se sentando ao seu lado.

— Por favor, não me chame de senhora não. Já basta estar vendendo minha empresa para saber que estou velha. Pode me chamar de Expedita. O nome, você certamente já sabe, é Maria Expedita. Coisa da minha avó.

— O santo das causas impossíveis — disse Janaina, puxando da memória o pouco conhecimento que sobrevivera aos anos passados desde sua eucaristia, quando ainda frequentava a igreja.

— Isso mesmo. Sabe, minha mãe teve uma gravidez de risco, como dizem hoje em dia. Minha avó pensava que eu nem nasceria, e quando nasci que eu não sobreviveria. Mas é claro que você já sabe como a história termina — disse sorrindo.

— Bem, você está aqui, e me parece bastante forte.

— Sim, mas você não imagina como foi difícil. Tudo sempre foi tão difícil.

Expedita cerrou os olhos e se virou para a janela, por onde o sol da tarde entrava tímido, naquele fim de primavera. Houve silêncio, e Janaina não sabia exatamente como prosseguir com aquela entrevista.

— É estranho pensar — continuou Expedita, ainda olhando para a janela — que sempre me achei uma guerreira. Nada foi fácil. Tive que lutar pelo direito de viver uma vida quase normal, mesmo com uma saúde muito fraca quando criança; batalhei para me separar do pai dos meus filhos, para criar uma empresa que colocasse comida na mesa, e crescer. Mas nunca pensei que terminaria assim.

De repente, Expedita se virou e encarou Janaina, que segurava o contrato com suas observações nas mãos.

— Sempre tive tanta certeza sobre quase tudo, mas agora… fico me perguntando se a vida tem mesmo um significado. O que ela está tentando me ensinar, no final das contas?

A pergunta ficou pairando no espaço entre elas. Janaina ficou paralisada, sem saber o que pensar. Tentava compreender se estava mais surpresa por ser questionada daquela maneira pela cliente, no que deveria ser uma simples reunião para revisão de um contrato de venda, ou com o fato de acreditar ter uma resposta para compartilhar. Lembrou do encontro de alguns dias atrás da praça próximo ao escritório, perguntando-se se deveria falar ou não. Em meio aos seus próprios devaneios, Expedita se levantou e encarou.

— Não se preocupe minha jovem — disse com um sorriso sem graça no rosto, quase envergonhada — não espero que você tenha uma resposta para me oferecer.

— Na verdade, talvez não seja uma resposta — disse colocando a pequena pilha de papéis sobre a mesa, levantando-se e cruzando os braços, enquanto ficava de frente com Expedita. — Acredito ser muito mais uma reflexão.

— Então pode me falar — disse Expedita, abrindo um largo sorriso e levantando os braços. — Estou aberta para algo que me mostre a direção.

— Talvez você possa pensar que o maior desafio que a vida nos impõe… é dar significado a ela. — não acreditava no que havia acabado de falar. Apenas lembrou do completo estranho dizendo aquela mesma frase ao deixar a praça.

— De onde você tirou isso?

A pergunta tirou Janaina das suas memórias. Como ela poderia explicar à cliente que dava conselhos com base na estranha conversa com um completo estranho?

— Desculpe! — disse se dirigindo de volta aos papéis. — Eu não deveria me intrometer dessa maneira?

— Na verdade, o que você disse faz muito sentido. Sempre discuti com meus filhos porque, para mim, eles não entendiam o sentido das coisas; da própria vida. Mas talvez fosse o meu sentido. Do que posso reclamar? Afinal cada um fez sua vida, de forma diferente, mas com honestidade.

Expedita se sentou novamente, fazendo sinal para que Janaina se sentasse ao seu lado.

— Sério, onde você leu essa frase.

— Você não acreditaria se eu contasse.

— Experimente. Quem saiba eu possa surpreender você.

Janaina contou sobre a praça, sua perda, o estranho e como a ausência havia se transformado em saudade. Sentia-se estranha ao relatar a história passada na praça, ainda mais pela expressão de seriedade e atenção que Expedita transmitia com o olhar. Quando terminou a história, ficou em silêncio, como quem aguarda pelo veredicto de um juiz.

— Quando liguei para o escritório pedindo que alguém revisasse o contrato, e viesse me tirar algumas dúvidas, solicitei que fosse uma mulher. Pura mania de quem acredita que precisa sempre dar um jeito de criar mais oportunidades para outras mulheres. Mas agora percebo que sua vinda aqui também não foi por acaso.

— Por quê? — perguntou Janaina confusa.

— Você poderia ignorar meus devaneios, falar sobre o contrato e voltar para sua cidade. Mas por algum motivo você decidiu compartilhar algo que havia aprendido.

— A frase realmente fez tanto sentido assim?

— Meu maior receio era o que aconteceria no dia seguinte à venda da empresa. Trabalhei todos os dias nos últimos 25 anos para levantar essa empresa. Mas estava cheia de incertezas sobre o que viria depois.

— E agora? — quis saber Janaina, sem perceber a expressão de curiosidade inocente da sua pergunta.

— Decidi que as incertezas podem ser gratas surpresas, que eu mesma me farei; porque eu vou escolher o que eu quiser fazer.

Expedita se levantou, olhou mais uma vez pela janela com um sorriso no rosto e se virou para Janaina.

— Gosta de chá, Janaina.

— Sim. Mas e o contrato?

— Você já o revisou?

— Sim.

— Está tudo certo?

— Sim.

— Então eu o assino depois…

Deixaram a sala cheia de recordações, enquanto Expedita pensava que talvez tivesse mesmo chegado a hora de simplesmente colher os frutos da prosperidade pela qual havia trabalhado todos aqueles anos. Já não era mais uma “batalha perdida”; o significado seria o que ela desse ao novo momento de sua vida. E ela havia escolhido seguir nessa busca por dar novos significados à sua própria vida.

 

 

*  * * 

 

2 comentários sobre “Contos Afetivos II :: Incertezas

Deixe uma resposta para Yala Kerolin Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s