Contos Afetivos I :: Saudade

Prefácio aos Contos Afetivos

Sempre fui apaixonado pelos diálogos na literatura, assim como na vida real. A força que existe num simples travessão que marca o início de uma pergunta provocativa, ou da resposta insolente, sempre com uma voz própria, torna ideias e reflexões mais próximas. Afinal, já não é apenas com a voz do autor que você pode se identificar, mas com a de múltiplas personagens.

Contar histórias nos ajuda a perceber diferentes perspectivas, e coloca toda pepita de conhecimento num lugar concreto, ainda que no imaginário. Assim será esta série de Contos Afetivos que, esperanço, inspire você nas suas reflexões e na maneira de reescrever sua própria história e diálogos.

 

 

Àqueles que sentem saudade.

 

Ela caminhou por duas quadras, rua acima, até encontrar diante de si a praça, seu oásis em meio ao deserto cinza, cheio de prédios altos de concreto e pessoas aparentemente vazias. Diante das cerejeiras floridas, e alguns flamboyants, chorou. Sentiu as lágrimas descerem por seu rosto sem se preocupar com as pessoas que passam apressadas de um lado para o outro. Pensou, naquele momento, que a insensibilidade dos outros lhe servia como véu, escondendo a vergonha de chorar em público. Não havia chorado na despedida, mas agora, todos os dias na praça, não conseguia se conter.

Talvez fosse a praça o motivo de sentir tanto a falta, afinal era ali que elas se encontravam todos os dias, durante os minutos livres da hora do almoço. Na primavera e no outono, quando o clima era ameno, costumavam comer ali, sentadas num banco ou na grama. No verão e no inverno, nem mesmo o calor ou frio extremos tirava o prazer da breve caminhada, quando riam das histórias que aconteciam nos seus escritórios, e também fora deles. Há três semanas os risos, as histórias e a companhia não existiam mais. Algo lhe faltava, e a praça parecia um quebra-cabeça incompleto.

Decidiu se sentar num dos bancos que ficava bem abaixo do maior flamboyant da praça, a fim de esperar secarem as lágrimas e retornar ao trabalho. Lá, ninguém sabia de sua perda, e não estava disposta a responder perguntas nem ouvir expressões vazias de conforto. Ela quase sorriu, enquanto pensava que talvez estivesse mesmo usando um véu de invisibilidade, pois ninguém sequer lhe dirigia o olhar. A sensação de segurança acabou quando sentiu o banco se mover com o peso de alguém sentando ao seu lado. Olhou em todas as outras direções e percebeu que praticamente todos os bancos estavam vazios.

Respirou fundo e se virou, decidida a encarar e expulsar quem quer que estivesse ali, mas a ira se dissolveu ao ver um homem, parecendo jovem, vestido de maneira simples, segurando um pequeno pote de vidro com uma das mãos, enquanto a outra terminava de colocar algo em sua boca.

— Perdoe-me! Você aceita? — disse o rapaz, cobrindo a boca com uma mão, enquanto a outra apontava para o pote. — São tâmaras.

— Não obrigada.

— Gosto de vir aqui comer tâmaras, — continuou o rapaz — deixa a praça ainda mais parecida com um oásis. Sei que não existem cerejeiras no deserto, ainda assim consigo imaginar o cinza do prédios como dunas de concreto que se estendem pelo horizonte.

Ela ficou sem reação, como se tivesse sido pega em flagrante, não apenas pelo choro, mas pelos próprios pensamentos. Como era possível que ele tivesse construído a mesma imagem que ela sobre a praça, no coração daquele deserto de concreto?

— Qual seu nome? — perguntou o rapaz com o jeito natural de quem se apresenta numa festa de amigos comuns.

— Por que quer saber? — respondeu de maneira um pouco ríspida, sentindo-se mal por isso.

— É que me ensinaram a não falar com estranhos. Por isso gosto de perguntar os nomes das pessoas com quem estou conversando — respondeu ele de maneira educada. — Assim, quando você dissesse seu nome eu diria que me chamo Khalil. Completaria com a expressão “muito prazer”, e talvez você fizesse uma careta estranha, ao que eu responderia “pelo prazer de estarmos vivos, compartilhando de um oásis”.

— Janaina — respondeu, mudando sua postura para a de alguém mais atenta, mas fazendo mesmo a careta que ele havia presumido que ela faria.

— Então, muito prazer Janaina.

— Você sempre se senta em bancos já ocupados para conversar com pessoas que dizem seus nomes? — perguntou Janaina com um tom levemente insolente e desafiador.

O rosto de Khalil assumiu um semblante tranquilo, esboçando um sorriso sem ironia, apenas um leve sinal de alegria.

— As pessoas costumam dizer que nada acontece por acaso, e eu concordo com elas, ainda que, muito provavelmente, por motivos bem diferentes. O ditado tenta nos fazer acreditar que exista um plano pré-estabelecido para aquilo que escolhemos fazer, como se tudo tivesse um sentido que nos é dado pronto. Entretanto, alguns outros, assim como eu, pensam que o acaso não exista pelo simples fato de que cada um de nós dá significado àquilo que nos acontece, em especial às escolhas que fazemos — disse khalil, colocando mais um tâmara em sua boca, então continuou. — Ao chegar na praça, decidi que minha vinda teria mais significado se eu me permitisse a oportunidade de sentar ao lado de alguém, mesmo que fosse apenas para compartilhar desse momento no oásis. E assim o fiz.

Janaina tentava, conscientemente, ocultar sua perplexidade. Jamais tinha imaginado ouvir tudo aquilo de um completo estranho, sentada num banco daquela praça. Perguntou a si mesma porque estava ali, então lembrou da perda, da dor pela falta. Aquele estranho havia lhe tirado alguns minutos do luto.

— Então você acha que somos nós os responsáveis por aquilo que a vida faz com a gente? — perguntou Janaina num impulso, se surpreendendo por dar continuidade à conversa.

— Responsáveis, sim, mas pelos significados, e não por aquilo que simplesmente nos acontece — respondeu khalil com tranquilidade. — É comum que se veja tudo isso pelo ponto de vista dos extremos. De uma ponta nos vemos como meras vítimas das circunstâncias, e da própria vida, como se ela fosse uma entidade que jogasse com a gente, assim como se jogam dados; e da outra pronta, somos criaturas irresponsáveis, escolhendo muito mal, ou fazendo mal, a nós mesmo e aos outros.

— E no que você acredita, então? — perguntou Janaina, curiosa para saber se concordaria ou não com uma resposta que, talvez, pudesse servir para ela mesma.

— Pode parecer um resposta exageradamente mediadora, mas acredito no caminho do meio. Afinal, existem circunstâncias que não controlamos, comportamentos dos outros que não escolhemos, como alguém vir se sentar do meu lado no banco da praça — disse sorrindo, — ainda assim escolhemos que significado dar a estes acontecimentos em nossas vidas. E por conseguinte, também escolhemos como lidar com eles, e como agir a partir deles.

— Então a vida não tem nenhum desafio moral, teste ou provação. Nem tão pouco um significado por ela mesma?

— Acredito que o maior desafio que a vida nos impõe e dar significado a ela — disse Khalil, voltando-se para a frente, mirando nos cachos floridos das cerejeiras, como se desse espaço para que Janaina pudesse, naquele momento, também dar o significado que quisesse àquelas palavras, e escolhesse de maneira consciente como agir.

Ficaram os dois ali, sentados em silêncio, apenas pensando. Não havia a necessidade de preencher o espaço entre eles com palavras, pois já haviam dado àquele momento o sentido da reflexão. Mas quando Janaina consultou o relógio, Khalil disparou:

— Hoje, qual significado essa praça tem para você?

— Ela me lembra a falta que sinto de alguém.

— Um grande amor, com certeza.

— Não — respondeu Janaina de maneira envergonhada, — uma amiga querida, que faleceu há algumas semanas.

— Uma amiga? Então, com certeza se trata de um grande amor — disse sorrindo. — Viu, tudo se trata de significados.

— Sinto a falta dela. A praça me parece vazia, pela ausência da sua companhia. Venho aqui e me sinto triste. Preciso parar de vir aqui!

Khalil colocou na boca a última tâmara do pote e o fechou. Sentou-me de lado, olhando diretamente para Janaina que, talvez por reflexo, fez o mesmo. Os dois se olharam por um segundo, como se estar um diante do outro fosse a coisa mais natural a se fazer no início da tarde de uma quarta-feira de outono.

— O maior desafio que a vida nos impõe é dar significado a ela… — disse Khalil, realçando cada palavra, como um professor que tenta evidenciar uma importante lição esquecida pela aluna. — Talvez a falta precise e mereça ser ressignificada como saudade.

— Mas qual a diferença? — Havia um leve tom de desesperança na voz de Janaina.

— A falta nos lembra a ausência, e nos faz pensar em tudo aquilo que não poderemos mais fazer com a pessoa que amamos e perdemos. — Assim que terminou a frase, a fisionomia tranquila de Khalil ganhou um largo sorriso e um brilho no seu olhar. — Já a saudade nos faz pensar em tudo o que vivemos, na maneira como afetamos e fomos afetados, aprendemos e ensinamos, e tudo o que realizamos com a pessoa que amamos. A saudade mostra que, mesma a pessoa não estando mais aqui, não há uma ausência completa, pois carregamos em nós aquilo que deixou saudade.

— Mas a praça continuará vazia dela.

— Talvez… ou repleta de memórias daquilo que vocês duas viveram aqui. Um oásis de recordações para quando a saudade for grande demais, ou quando quiser lembrar de como você mesma se tornou parte de quem é hoje.

Khalil se levantou. Agradeceu pela companhia e conversa, enquanto Janaina apenas olhava para o alto, vendo a luz descer por entre as folhas do flamboyant que os cobria. Ele já havia se afastado quando ela apenas repetiu:

— O maior desafio que a vida nos impõe… e dar significado a ela.

Janaina consultou mais uma vez o relógio, fez uma careta e correu na direção do deserto cinza que já não parecia tão árido quanto antes.

 

*  * * 

 

6 comentários sobre “Contos Afetivos I :: Saudade

    1. Sempre gostei das narrativas, mas aprendi com Ayn Rand (uma filósofa extraordinária) o poder da literatura ficcional para abordar temas reflexivos; como ela o fez em A Revolta de Atlas e Nascente (dois livros incríveis).

      Sem a mesma pretenção; porém, seguindo os mesmo passos. =D

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