Saímos mesmo diferentes das crises?

Pelo título você pode até pensar: “nossa, mais um texto sobre a crise do Coronavírus”; mas garanto que a reflexão que proponho aqui é atemporal, ainda que a inspiração seja mesmo nosso momento atual, especialmente as frases ditas ou escritas por diferentes pessoas, como: “sairemos diferentes dessa crise”; “veremos muitas mudanças depois do Coronavírus”; ou “as pessoas irão agir diferente depois disso tudo”. Será que saímos mesmo diferentes das crises? 

E antes que você julgue minha pergunta como pessimista, devo lembrar que já assumi mesmo ser otimista; e a admissão de “culpado” está aqui, publicada no LinkedIn (hahaha). Entretanto, nessa jornada de pouco mais de 40 anos, posso afirmar que vivi uma boa dose de crises, tanto individuais quanto aquelas compartilhadas socialmente. Foram enchentes, fome,  enxurradas, desemprego, coração partido, decepções, perdas, desabrigo e quase falências; não necessariamente nesta ordem. (Sim, já tive um vida e tanto até aqui!)

Você lembra da crise “iniciada” em 2008? Ainda lembro como eu e a equipe com quem trabalhava acompanhamos assustados as notícias no final daquele ano; e como foi receber as primeiras ligações de cancelamento dos contratos pelos quais havíamos batalhado tanto. O mais fascinante é que só compreendi tudo aquilo, e consegui fechar meu ciclo de aprendizados, quando assisti ao filme A Grande Aposta, em 2016 (OITO ANOS DEPOIS! #fica_a_dica).

Portanto, posso dizer que tenho um bom (ou péssimo) histórico com crises, assim como você e tantas outras pessoas, tenho certeza; e em todas elas sempre ouvi as mesmas frases que tenho ouvido e lido nestes últimos dias.

 

Crise precisa ser sinônimo de MUDANÇA

Ainda hoje, estranho sempre que alguém relaciona uma situação ou cenário de crise com a ideia de oportunidade; isso porque as pessoas quase nunca explicam para quem são essas oportunidades (???); ou oportunidades de quê (???). Você pode imaginar produtos, serviços e inovações que surgiram em meio às crises, com bons resultados para algumas empresas, e até a solução de necessidades de alguns clientes (a um preço “justo”, é claro); mas se há uma oportunidade verdadeira em toda crise, com potencial impacto positivo para todas as pessoas, é de gerar mudanças nos comportamentos, hábitos e atitudes, em indivíduos e na sociedade.

 Lembro de uma palestra que me foi encomendada no segundo semestre de 2009; o Brasil estava sob o efeito da “marolinha” (se você não lembra, pesquisa aqui) gerada pela bolha imobiliária. Naquele momento, a cliente queria transformar o discurso de crise num diálogo sobre novas oportunidades. No dia da apresentação, logo após a fala entusiasmada do presidente sobre o futuro, subi ao palco e lancei numa tela gigante a seguinte pergunta: “O que você quer conquistar no futuro?”; depois de alguns segundos de silêncio propus que cada participante fizesse a mesma pergunta para as pessoas ao seu redor. Por quatro minutos houve alvoroço e conversas tão entusiasmadas quanto à fala do presidente no início do encontro; passado o momento de reflexão descontraída (ou descontração reflexiva), lancei uma segunda pergunta na tela: “Então, o que você pretende mudar hoje?”

Embora eu concorde que as duas perguntas possam soar bem clichê, preciso dizer que o impacto foi incrível. A verdade é que as pessoas naquele auditório queriam muito sobreviver à crise, e esperavam que algo fosse ser diferente depois das perdas e pressões sofridas; entretanto, sem perceber, elas estavam fazendo exatamente isso: esperando.

Talvez você discorde de mim, ou diga que é exagero, mas esta “espera” é o que vemos no comportamento das pessoas, em diferentes crises, inclusive no período de pós-crise no relacionamento amoroso, por exemplo. É comum ouvir das pessoas que elas esperam que o outro mude, ou que a próxima pessoa (no caso de um término) seja diferente. Ignoram dois pontos importantes aqui: o primeiro é que a mudança pode/deve começar por ela mesma; e, em segundo lugar, que o ponto de virada aconteceu durante a crise, no momento em que ela tomou consciência e decidiu mudar seu comportamento, desencadeando mudanças que transformaram a realidade da relação.

Ouvimos o quanto as pessoas esperam que tudo seja diferente depois de uma crise; mas é durante a crise que as mudanças precisam surgir e serem cultivadas como novos hábitos.

 

O anseio pela normalidade

Há alguns dias, logo no início da quarentena imposta para conter o avanço do Coronavírus, vi nos jornais a corrida de várias pessoas aos supermercados; os carrinhos cheios eram justificados pelo medo de quantos dias precisaram ficar em isolamento, ou pelo possível desabastecimento. Mas não demorou muito para surgirem publicações das pessoas fazendo churrascos ou jantares volumosos.

É estranho perceber que poucas pessoas relacionaram o isolamento com a importância do racionamento, seja de alimentos, água, energia, gás; afinal sabemos que estamos num momento de exceção, fora da “normalidade”. Em cenários de adversidade, fora do que é “comum”, é preciso escolher também agir de maneira diferente.

Este anseio pela normalidade pode tanto provocar ainda mais ansiedade quanto impedir que você, eu, ou qualquer outra pessoa façamos as perguntas importantes para refletir num momento de crise: Quais circunstâncias ignoramos para chegar até este ponto? De que maneira nossas escolhas (individuais e coletivas) nos deixaram expostos a estas circunstâncias? Quais escolhas preciso fazer agora? E quais destas mudanças posso/devo cultivar depois, como novos hábitos ou atitudes?

 

Experimente MUDAR

William Arthur Ward (1921-1994), administrador e escritor estadunidense, é autor da célebre frase: “A adversidade leva alguns a serem vencidos, e outros a baterem recordes”; uma reflexão repetida de diferentes formas, mas igualmente importante.

Existe sim uma oportunidade para todos nós nesta crise atual, e todas aquelas pelas quais sabemos que ainda vamos passar, afinal de contas a vida é um sistema complexo que vira e mexe sai um pouco dos trilhos e volta a se regular, e ela envolve experimentar mudar hábitos e atitudes na maneira de nos relacionarmos com as outras pessoas, na forma de trabalhar, na dependência que temos de certos produtos ou serviços, e, acima de tudo, na necessária atenção ao cuidado especial com nossa saúde.

Olhe ao seu redor, veja do que você é capaz para sobreviver neste momento, reconheça estas suas habilidades e competências, tudo o que foi capaz de mudar neste período; então escolha experimentar levar esta mudança para depois da crise. Afinal, quando a crise sanitária e humanitária terminar vamos precisar lidar com outra: a humanitária/econômica; mas serão os aprendizados dessa crise atual que nos tornarão mais aptos para lidar com aquilo que ainda vem pela frente.

Não espere pela mudança; experimente mudar! E lembre-se:

 

“A resposta para os cenários de adversidade, seja nas relações pessoais ou profissionais, continua sendo o resgate e foco no seu Propósito!”

 

Rafael Giuliano,
aprendendo que aquilo que é necessário para sobreviver também é o ESSENCIAL PARA VIVER!

2 comentários sobre “Saímos mesmo diferentes das crises?

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