Home Office – Integridade e Produtividade

Antes de tudo, preciso dizer a você algo a respeito da escolha do tema. Escrevo esse texto em março de 2020, e estou no terceiro dia da quarentena recomendada pelo governo de Santa Catarina para deter o avanço do Coronavírus; mas considero que as inspirações que proponho aqui sobre integridade e produtividade no trabalho em home office são, de certa maneira, atemporais, e não se limitam aos momentos de isolamento impositivo como de agora.

A verdade é que o “home office” vem sendo tema de diversas discussões, dentro e fora das organizações. Por um lado festejado como a conquista da liberdade, da flexibilidade nos horários, ou de poder trabalhar com pantufas; por outro, muitas vezes criticado por distanciar os membros das equipes, ou gerar o sentimento de isolamento em algumas pessoas. Em meio ao debate, surgem duas questões importantes: a primeira é que “trabalhar de casa” nos faz lembrar que somos seres integrais; e a segunda que essa dinâmica aumenta o desafio da produtividade. Vamos então começar pela primeira reflexão.

 

A fronteira imaginária entre Pessoal e Profissional

Quando saímos de casa para trabalhar, o ato de nos locomover (seja de carro, ônibus, bicicleta ou mesmo a pé) cria a sensação de que deixamos para trás nossa vida pessoal e assumimos nosso papel (ou “posto”) numa outra vida, a  profissional. A fronteira entre esses dois “mundos” existe apenas no nosso imaginário; uma ilusão reforçada pela distância física ou pela simples mudança de ambiente.

É com base nessa fronteira imaginária que cobramos dos outros, e de nós mesmos, que não haja influência da vida pessoal sobre a profissional, ou no clima do ambiente organizacional; dizemos e ouvimos frases como “deixe seus problemas de casa em casa”, ou “não traga para cá os problemas lá de fora”. O fascinante é perceber que simples ideia de que existe um lado de “fora” ou “dentro” cai por terra quando o ambiente em que moramos passa a ser o mesmo onde trabalhamos; especialmente quando somos obrigados por uma pandemia, como neste momento, ou por quaisquer outras razões, temporárias ou permanentes.

Trabalhar de casa retira de nós a dinâmica da locomoção, portanto enfraquece a ilusão dessa fronteira imaginária entre a vida pessoal e profissional. Pessoas que compartilham a moradia com esposos, esposas, filhos, pais ou irmãos, reconhecem o imperativo da interação social; afinal não se pode ignorar uma pergunta, pedido de ajuda ou a demanda por atenção das pessoas com quem convivemos. Da mesma maneira, aquelas pessoas que moram sozinhas são provocadas pelas visões que as lembram de que a vida não se resume ao trabalho; afinal existe a louça ou roupa para lavar, a cama por arrumar ou compras por fazer, além do fácil acesso a toda forma de lazer que temos em casa. Por isso, a pessoa que trabalha a partir de casa é lembrada o tempo todo que existem mais responsabilidades que aquelas do seu trabalho.

Entretanto, reconhecer que esta fronteira é de fato apenas imaginária nos faz tomar  consciência de que cada ser é um e indivisível, com uma vida que precisa ser vivida com integridade, sem poder se dividir em partes, como se fosse um máquina de engrenagens. Por isso, o home office é mais que apenas uma forma de manter organizações funcionando num momento de crise, de otimizar a mobilidade urbana ou dar liberdade às pessoas; trabalhar de casa é a oportunidade de olharmos nossa vida em perspectiva, percebendo todos os pontos que se conectam e se cruzam, criando significado para ela.

 

Desafios à Produtividade

Bem, se por um lado o home office nos mostra a vida como ela é (íntegra e repleta de responsabilidades interconectadas), trabalhar a partir de casa apresenta diversos desafios, a começar por estes que descrevi nos parágrafos anteriores. Interrupções, tarefas cotidianas, e ainda a distância de colegas ou decisores em processos que requerem agilidade.

Percebo quatro diferentes formas desafios fundamentais:

 

1) Hardware/Estrutura Física: dos equipamentos que atendam os pré-requisitos do trabalho (como computadores, fones, entre outros), passando pela ergonomia da cadeira e mesa, até aspectos como controle de luminosidade e isolamento acústico (quando possível);

2) Software/Conectividade: aplicativos de trabalho e armazenamento na nuvem, incluindo funcionalidades de colaboração síncrona, além do acesso à internet e plataformas de comunicação instantânea;

3) Comunicação/Autonomia: canais de comunicação para fornecer pareceres e receber orientações, e processos claros que garantam autonomia (quanto mais clara as “regras do jogo” melhor a atuação individual e o resultado coletivo);

4) Autodisciplina: envolve o exercício de cada colaborador em descobrir/criar sua melhor forma de organização e trabalho, respeitando as relações de colaboração com o método individual dos seus colegas, e as entregas coletivas que precisam ser feitas.

 

É imprescindível lembrar que as três primeiras formas de desafios constituem responsabilidades compartilhadas entre a organização e colaboradores; pois ainda que a empresa seja provedora de ferramentas, sistemas e método, cada profissional precisa oferecer sua perspectiva em relação à capacidade de atendimento da cada um desses elementos a fim de garantir suas entregas individuais e coletivas.

Já a autodisciplina é mesmo um exercício individual, em que cada pessoa precisa tomar consciência da sua melhor forma de trabalhar. Ainda assim, cabem algumas dicas para você construir seus próprios hábitos para alta performance:

  • Decida, de maneira colaborativa com seus pares ou líderes, quais as prioridades, e reveja os cronogramas de entrega, de maneira a reduzir as mensagens de cobrança que geram pressão e ansiedade. E sempre que perceber a possibilidade de um atraso, avise com antecedência à equipe;
  • Se você gosta de listas, ok; se prefere agendas virtuais, tudo bem; se for adepto de aplicativos mais visuais (como o Trello ou o Meister Tak), melhor ainda! Porém, descubra a melhor ferramenta para gerir suas atividades, lembrando que seu foco está em realizar, não gerenciar o gerenciador de tarefas;
  • Experimente estabelecer períodos de tempo no decorrer do dia para responder mensagens instantâneas e e-mails, reservando blocos maiores de tempo para se dedicar a uma atividade de criação ou desenvolvimento;
  • Lembre-se das suas conexões sociais, dentro e fora de casa, e reserve um tempo para elas. Para isso, respeite seus horários, incluindo o almoço e as breves paradas de ócio criativo;
  • Aliás, use o ócio criativo!!! Uma atividade emperrou? Deixe-a de lado, “marinando” (ou cozinhando em banho-maria, se preferir), depois volte à ela;
  • Crie seu canto, pois apesar da fronteira imaginária entre sua vida pessoal e profissional ser apenas uma ilusão (coisa da sua cabeça), ela ajuda você a se concentrar naquilo que precisa ser feito, mantendo o foco!

Lembre-se que a procrastinação e os excessos são os dois lados de um mesmo problema: a falta de autodisciplina; tanto a mania de deixar para depois quanto o descontrole sobre horários e desrespeito às necessidade físicas e mentais pelo descanso (incluindo o ócio criativo), causam a diminuição da potência e, portanto, da performance sua (individual) e também dos outros (coletiva).

 

Isolamento, mas não solidão

Em tempos de Coronavírus, você já deve ter ouvido falar em “isolamento social”; confesso que a expressão não faz o menor sentido no mundo transformado pela conectividade virtual como vemos diante de nós hoje. Da mesma maneira, sentir-se só trabalhando a partir de casa pode ser sinal de que você ainda não está explorando todo este potencial conectivo.

Você pode estar em casa, sozinho ou cercado por seus familiares nos demais cômodos, e ainda estar conectado aos colegas, clientes e parceiros de trabalho. Claro, não é uma presença física, mas ainda pode ser plena. A maior dificuldade da maioria das pessoas está em não estar plenamente presente no diálogo, o que faz com que cada mensagem seja recebida como uma “cutucada” que retira a sua atenção. Minha dica: se alguém já lhe enviou três mensagens num intervalo de 5 minutos, pare e a faça parar para dialogar com você; e a segunda dica: se você precisar explicar a mesma coisa pela terceira vez, ou estiver fazendo a outra pessoas explicar algo pelo mesmo número de vezes, faça uma ligação de voz ou videochamada, pois é provável que a limitação seja comunicacional, não explicativa. O tom da voz e as expressões não verbais ajudam.

Experimente criar momentos de integração social, inclusive virtuais! Converse com seus colegas sobre curiosidades, almoce com a família, leia um artigo de cultura geral. É imprescindível descoisificar nossas relações, desconstruindo a ideia de que os outros “servem apenas aos objetivos de uma tarefa ou projeto”.

Transforme sua vivência no home office numa experiência de descoberta da sua integridade como ser humano e potencial produtivo como agente de transformação.

 

 

 

Quer saber mais sobre como explorar seu potencial, então entre em contato? Agora, se você quer levar estas e outras reflexões para sua organização e equipe, descubra como através da Mentoria Sistêmica.

 

Mais do que ideias,
INSPIRAÇÕES PARA MUDANÇAS!

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