Novo Manual de Uso do DESABAFO!

Um dos princípios na Terapia Afetiva, baseada na Conscienciologia Humanista, envolve a Ressignificação; um processo pelo qual buscamos criar novos significados para o que recebemos ou percebemos vindo do outro, assim como naquilo que compartilhamos e inspiramos nas pessoas. A série “Novo Manual de Uso” é uma provocação lúdica para refletir sobre diferentes comportamentos, propondo “novas” maneiras de uso, começando pelo desabafo.

Você pode até pensar: “Mas não tem como errar! Desabafar é só colocar para fora o que está me incomodando!”; sim, é assim mesmo que usamos o desabafo hoje. E parecem sobrar espaços e formas para “colocar para fora”, especialmente os virtuais . Facebook, Instagram, Twitter, e até aqueles grupos chatos do WhatsApp que pareciam não ter sentido algum de existir ganham novo propósito ao servir como repositório dos desabafos.

O fascinante é que esta facilidade digital vem transformando também nossa forma de escolher os momentos de desabafo. Antes de todas estas plataformas virtuais (ou “canos de escape emocionais digitais”), conversávamos com amigos depois do horário de trabalho, convidávamos alguma confidente para o almoço, ou reuníamos um pequeno grupo de amigos numa tarde do fim de semana, quando o assunto era sério mesmo, ou ainda passávamos horas ao telefone com um bom ouvinte. Essa quase preparação nos dava tempo para processar os acontecimentos. Hoje, uma grande maioria das pessoas publica seus textões ou requerem a atenção dos outros a qualquer momento, dentro ou fora das redes sociais.

Acredite, sou absolutamente favorável ao desabafo e reconheço seu valor. Eu mesmo gosto de desabafar; mas quando alguém vem desabafar comigo já pergunto: “Você quer só pôr para fora ou vamos conversar para encontrar novas perspectivas?”; penso que aí está uma boa nova maneira de usar o desabafo, transformando-o num desabafo ressignificativo. Experimente refletir comigo sobre estas dicas.

 

 

Fale, ponha para fora! Mas ouça o que você está dizendo!

Durante uma uma curta viagem de metrô em São Paulo, fui sequestrado pela história da mulher no banco atrás de mim, que contava à amiga sobre sua briga com uma colega de trabalho. O tom inicial a colocava no lugar de vítima, mas a medida em que a narrativa se desenrolava era se tornava a vilã dos acontecimentos. Percebi que outras pessoas, assim como eu, também haviam sido sequestradas pela narrativa empolgante. No início, ainda tímidos, os passageiros ao redor trocavam olhares e sorrisos cúmplices; mas depois tudo virou constrangimento; e o silêncio da “confidente” parecia ser o grito de alguém que diz: “Amiga, então, você tava errada.” 

Na hora de desabafar, é importante pensar para quem você está contando a história. No melhor cenário, você sempre estará falando para no mínimo duas pessoas: o outro (seu confidente) e você. Se for para falar a apenas uma pessoa, que seja para você!

Colocar um sentimento para fora é apenas o primeiro passo de um desabafo ressignificativo; contada a história, é preciso tomar consciência plena dela, compreender aquilo que nos afetou e buscar por novos significados nos acontecimentos que nos permitam transcender (superar de fato) aquele momento, a fim de retomar nosso ciclo de contato, ações e propósito. A mera repetição da história não traz a oportunidade de cura; é imprescindível que você se ouça para ressignificar sua história, compreendendo-a por outras perspectivas.

 

 

Tenha no seu confidente um reflexo dos significados da história!

Num sábado, enquanto almoçava no Mercado Municipal em Curitiba, percebi as caretas que a mulher da mesa ao lado fazia. Por curiosidade, prestei um pouco mais de atenção à história que seu amigo, sentado em frente a ela, contava com tanto entusiasmo. Tratava-se de uma briga com a noiva e sua espetacular vingança. Era notório o incômodo dela em relação às atitudes que ele havia tomado; mas ele não estava percebendo ou usando de maneira apreciativa todos aqueles feedbacks traduzidos em caretas.

Uma forma simples de você ouvir seu desabafo, e tomar consciência dos significados da história, é olhar as reações do seu confidente; o que se torna difícil quando se desabafa apenas por meio de textões nas redes sociais, pois se perde a oportunidade das respostas naturais e não verbais de um verdadeiro exercício de diálogo.

As reações de um confidente oferecem pistas; um olhar de fora que serve como um espelho, refletindo de volta pontos que merecem mais atenção, seja nas suas atitudes ou nas de outras pessoas envolvidas nos acontecimentos narrados. É interessante dizer que estas reações são diferentes de opiniões (comuns na forma de comentários nas redes sociais); e se traduzem em perguntas, na repetição que o outro faz sobre algo que você tenha dito, ou nas expressões de surpresa, dúvida e espanto (muitas vezes naturalmente não verbais).

Para ressignificar um acontecimento ou diálogo que nos afetou é imprescindível abrir nossos olhos para as diversas perspectivas, que nem sempre conseguimos encontrar nas nossas próprias reações; por isso a importância significativa do diálogo com o outro, e da atenção aos reflexos que recebemos.

 

 

Quando estiver ouvindo, provoque a reflexão sem se preocupar com opiniões ou dar respostas!

Agora, e quando você está no lugar de confidente, ouvindo o desabafo ao invés de “pôr para fora”? No “Novo Manual de Uso” para o desabafo, este também é um papel que merece ser ressignificado.

No consultório é comum ouvir dos pacientes relatos de conflitos vividos por outras pessoas, nos quais eles [os pacientes] foram envolvidos por serem confidentes. A preocupação da grande maioria envolve “o que dizer?” diante das histórias compartilhadas por colegas, amigos e familiares. Minhas sugestão é sempre esta: procure provocar a reflexão, sem se preocupar com opiniões ou dar respostas prontas!

Lembra da cena do almoço no Mercado Municipal de Curitiba? Poderíamos chamar este de um “caso de sucesso”, pois próximo ao final do relato, mesmo com o rapaz aparentemente não se ouvindo ou percebendo as caretas da amiga, ela conseguiu provocar várias reflexões, perguntando a ele “qual o objetivo?” em diferentes momentos e ações. Diante daquelas questões ele conseguiu perceber a ausência de propósito; seu entusiasmo foi diminuindo; e a fisionomia era de alguém pensando na dor que havia imposto à noiva e a ele mesmo.

Considerando que o principal uso do desabafo deva ser a pessoa que desabafa ouvir sua própria história, o principal papel de quem ouve (confidente ou não) é criar estas oportunidades de autoescuta para quem está desabafando.

Expressar opiniões pessoais, ou sugerir respostas prontas de como a pessoa “resolveria o problema”, está longe de ser a expressão da empatia. Apenas concordar ou reforçar os sentimentos que envolvem o desabafo é ser simpático à pessoa; uma armadilha que pode gerar mais conflitos e o distanciamento de amigos, quando finalmente a pessoa conseguir ressignificar aquela situação de conflito.

 

 

Terapia é ir muito além do desabafo!

Já recebi pessoas que, na primeira sessão, perguntaram se a terapia seria apenas elas falando, enquanto eu ouviria e faria anotações. Sempre acabo rindo nestas ocasiões, para depois explicar que na forma com que trabalho também falo bastante, mas apenas com o propósito da pessoa se ouvir.

A terapia cria um espaço ideal para o desabafo, pois os presentes estão ali dedicados a explorar todas as diferentes perspectivas, a fim de criar consciência sobre a história e atitudes envolvidas; do acontecimento até a próxima sessão, a pessoa teve a oportunidade de refletir sobre sua narrativa e os papéis dos envolvidos; e o propósito do encontro é claro: superar (transcender) a história para voltar a viver de maneira plena o aqui e agora.

E o mais incrível é poder pegar estas características da terapia e trazer para seus desabafos no dia-a-dia, pois são atitudes humanas que não se limitam ao ambiente do consultório.

Experimente transformar o “pôr pra fora” num exercício de verdadeiro desabafo ressignficativo, sempre com o propósito de se ouvir e encontrar meios para seguir sua jornada de maneira plena.

 

 

Rafael Giuliano,
ouvindo, se ouvindo e ressignificando para seguir de maneira plena!

2 comentários sobre “Novo Manual de Uso do DESABAFO!

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