Pelo direito de sentir, inclusive a dor!

Eu tenho observado um paradoxo fascinante nos dias atuais: se por um lado ouvimos falar do excesso de exposição nas mídias sociais, percebo que as pessoas têm cada vez menos espaços e oportunidades para compartilhar, de verdade, aquilo que sentem, inclusive suas dores. Entretanto, acredito que nosso erro está em confundir expor com compartilhar emoções; afinal são duas formas de agir bem distintas uma da outra.

Se você ficou em dúvida sobre esta diferença, veja aqui o diálogo que tive há alguns dias com Caio (nome fictício, é claro!), um jovem de 23 anos que atendo em terapia:

– O que você quer compartilhar comigo hoje, Caio? – Perguntei para dar início à sessão.

– Compartilhar? Do que adianta compartilhar algo hoje em dia? – O tom de voz subiu um pouco, enquanto o olhar estava pregado no chão. –  A gente compartilha tudo o dia inteiro, com um mundo de gente, e pra quê?

– Veja que interessante…  – disse e esperei que ele me olhasse nos olhos. – Se eu lesse isso que você acabou de me dizer talvez eu pensasse que você estaria sentindo raiva; mas por estar aqui, sentado bem diante de você, acredito que eu sinto um pouco de tristeza nisso que você está compartilhando comigo, não raiva. Você percebe a diferença?

– Não… – o tom de voz já havia voltado ao normal; ele ainda olhava para mim, agora com uma expressão de curiosidade.

– Eu posso expor muita coisa nas mídias sociais. Posso falar das minhas dores ou prazeres; do que perdi ou ganhei. Mas independente de escrever um post curto ou textão; de fazer uma foto ou vídeo no “story”; eu sempre estarei apenas lançando algo para ser avaliado pelos outros, buscando quem sabe até uma forma de aprovação. E esta avaliação, que pode vir na forma de um “like” ou comentário, será apenas a resposta da outra pessoa em relação à maneira como ela se sente naquele momento, não o meu!

– Tá, mas então quando é que eu compartilho de verdade o que eu tô sentindo? – A pergunta veio com um misto de desabafo e desafio.

– Acredito que, independente do canal presencial ou virtual, nós compartilhamos de verdade quando o propósito é oferecer aquilo que estamos sentindo para inspirar algo na outra pessoa, sem precisar, querer ou depender da resposta dela; sua avaliação, nem mesmo aprovação.

– Quando postei esta semana que eu não tava legal; que me sentia meio mal e tal, todo mundo veio me falar pra “sair dessa”, que eu “não dava valor pra vida” que tenho… – os olhos encheram de lágrimas. – Eu não sei se as pessoas querem o meu bem, ou só não querem saber que eu tô mal.

A história de Caio se soma a tantas outras que escuto nos atendimentos; e trazem duas importantes reflexões: (1) é preciso reconhecer a diferença entre expor e compartilhar emoções; e (2) pessoas estão sofrendo com esta ausência de empatia ou compreensão, como se não tivessem o direito de sentir, inclusive a própria dor.

 

Na dúvida, chore!

Em junho de 2019 escrevi um texto com o título É preciso declarar o que se sente. A ideia central é que “Aprender a se declarar pode até não ser a ‘solução para todos os seus problemas’; mas pode tornar sua vida, e das pessoas ao seu redor, mais significativa e menos doente”. Mas hoje parece haver uma cobrança para que todo mundo pareça melhor do que realmente está.

Uma colega me convidou para um café. Quando nos encontramos ela disse que estava em dúvida se deveria ter marcado uma sessão ou apenas um bate-papo comigo. Respondi que não era preciso se preocupar em classificar aquele encontro.

Depois de algumas amenidades (cachorros, férias e as últimas “piadas” do noticiário), perguntei como ela estava. Seus olhos se encheram de lágrimas, então disparou:

– Desculpa! – Falou enxugando o rosto.

– Pelo quê? – Perguntei fazendo cara de desentendido.

– Eu convido você para conversar, nem mesmo começo a falar e já estou chorando!

– Pena, pensei que você tivesse me chamado para poder chorar despreocupadamente.

Ela sorriu, então deixou as lágrimas rolaram livremente. Alguns olhares se voltaram na nossa direção. Tirei um lenço de papel da mochila e o ofereci a ela. As pessoas nas mesas próximas desviaram o olhar diante do meu gesto.

– Há alguns dias, numa roda de amigas, tive uma crise de choro depois de contar para elas o que estava acontecendo com minha mãe; falei da cirurgia e dos meus medos. Foi estranho, porque eu estava com as mão no rosto quando senti que uma delas me abraçou; mas na hora em que comecei a sentir o calor do abraço ela me sacudiu e disse que eu devia saber que “vai ficar tudo bem”.

– Interessante… E como você se sentiu?

– Acredita que eu me senti culpada por estar triste? Elas mudaram de assunto tão rápido que eu nem percebi. Mas quando saí de lá a dor dos medos e dúvidas voltou ainda mais forte, e eu me senti sozinha e perdida, sem saber se devia chorar ou não.

– Na dúvida, chore! – Respondi com um sorriso. – Na hora da vontade, chore! O choro é uma declaração daquilo que se sente e da liberdade que temos de sentir!

Situações como esta, descrita por minha colega, ocorrem com cada vez maior frequência; talvez porque uma grande parcela das pessoas não esteja sabendo lidar nem com suas próprias dores, quem dirá lidar com as dos outros. Ou seja algo ainda mais crítico.

Suspeito que muitos de nós, de diferentes formas, estamos nos tornando intolerantes à dor, especialmente a dos outros. Talvez por conta de toda cobrança de parecer forte e não expressar aquilo que realmente sentimos; hoje temos medo de precisar lidar com a dor do outro.

 

Você não precisa ter todas as respostas!

Enquanto fazia a anotações para este texto, conversei com um grande amigo sobre minhas observações. Ele parou reflexivo por alguns segundos, então perguntou: Mas o que eu posso dizer para alguém que compartilha comigo sua dor? Eu quase nunca sei o que dizer. Minha resposta foi direta: Você não precisa ter todas as respostas! Talvez fazer perguntas que expressem seu genuíno interesse, a importância que você dá ao sentimento daquela pessoa, demonstrará que aquele a emoção compartilhada inspirou algo em você. Quem sabe empatia; ou compaixão.

É fascinante perceber que para muitas pessoas a dor e a tristeza ainda são “problemas que precisam ser resolvidos”, seja na minha vida ou na da outra pessoa. Ignoram assim que estes sentimentos fazem parte tanto das nossas dimensões de afeto e aprendizado quanto da realização; afinal, às vezes é preciso vivenciar esses sentimentos para que possamos reconhecer o que nos afeta, aprender a explorar nossos potenciais e nos realizar de maneira plena.

Diante da dor do outro, experimente se conectar, demonstre interesse, faça perguntas sobre a pessoa e seus sentimentos, não sobre o que os causou. Lembre-se: diferente de um problema para ser resolvido, o sentimento compartilhado busca despertar algo em você.

Fala-se tanto sobre a importância da Inteligência Emocional e da empatia, mas diante de toda a cobrança social que vemos hoje, talvez seja o momento de dialogarmos mais pelo direito de sentir, inclusive nossa dor

Talvez você se pergunte: Mas então as pessoas têm que sofrer? Minha experiência me mostrou que todo afeto, todo sentimento e emoção têm uma papel importante na nossa existência e construção como indivíduos; negar qualquer sentimento que nós possamos sentir é como pular uma fase desta construção, o que pode tornar toda fundação instável, causando seu desmoronamento.

Permita-se sentir, declare-se, e ao lidar com a dor de outro ser humano se lembre que se trata de um ser humano.

E se você ainda quiser saber de mais exemplos, histórias, ou compartilhar sua história comigo, entre em contato para um bate-papo!

 

Rafael Giuliano,
aprendendo, todos os dias, a lidar consigo mesmo e outros seres humanos!

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