Terapia ao Ar Livre?

Você já percebeu como algumas propostas novas podem chocar ou surpreender, mesmo quando não se trata de algo tão “novo” assim. Quando você imagina alguém “fazendo terapia”, por exemplo, qual a primeira coisa que lhe vem à mente? A pessoa deitada num divã? Talvez num espaço mais zen, com almofadas pelo chão, um incenso, e meia-luz? Ou o Selton Mello sentado numa poltrona, com olhar sexy para você? Acredite, alguns encontros terapêuticos acontecem em ambientes abertos, ao ar livre, em contato com a natureza; e isso não é bem uma novidade.

Como minha vida envolve viajar muito, adotei a dinâmica de trabalhar com meus pacientes de maneira virtual. Mas sempre que tenho a oportunidade de estar na mesma cidade em que alguns deles moram, como Curitiba, São Paulo ou Balneário Camboriú, aproveito para realizar algumas sessões presenciais; especialmente para iniciar novos atendimentos.

Por conta de uma série de compromissos, decidi permanecer mais tempo em Curitiba nestas últimas semanas do ano; por isso abri minhas agendas para mais encontros olho-no-olho. Há alguns dias atrás, logo após a finalização de um atendimento, recebi a ligação de uma pessoa para quem eu havia sido indicado. De maneira muito educada, ela perguntou se eu poderia falar naquele momento; respondi que sim e a conversa seguiu com a apresentação de sua história.

De repente, passou por mim uma criança gargalhando com um cão; a potencial nova cliente parou de falar do outro lado da linha, então perguntou se eu estava no “consultório”. Respondi que sim, “num dos consultórios onde atendo em Curitiba, na verdade”. Seguiu-se a conversa, até que outro cão passou latindo, atrás de um disco de frisbee. De novo o silêncio, então a pergunta: “Mas onde é esse seu consultório?”

 

 

Ensinamentos Peripatéticos

Em meu perfil no Twitter há a seguinte descrição biográfica: “Minimalista, nômade, mentor e terapeuta; uma espécie de estóico peripatético! Curioso por natureza e pela natureza humana!” Logo depois de publicá-la, algumas pessoas vieram me perguntar sobre o significado de “estóico peripatético”.

Se você ainda não sabe, tenho uma quedinha pelo Estoicismo, uma filosofia que promove uma vida de acordo com a natureza, e a faz pelo modo de viver a vida, não de como falar sobre ela. Na reflexão de Sêneca, expoente desta escola: “A filosofia nos ensina a agir, não a falar.” Mas e o peripatético?; você deve estar se perguntando. É a palavra grega para “ambulante” ou “itinerante”, e vem da Escola Peripatética fundada por Aristóteles, conhecida pelo hábito de ensinar ao ar livre, quase sempre caminhando por sob portais conhecidos como perípatos, ou sob as árvores que o cercavam.

Acredito que toda terapia proporciona um exercício de reconexão com nós mesmos e o mundo ao nosso redor, despertando novas formas de agir, não apenas de pensar ou falar; e o ambiente da terapia influencia muito nesse processo. Alguns temas requerem um “ambiente controlado”, que promova a sensação de segurança necessária ao diálogo; já outros ganham força quando o ambiente explora diferentes perspectivas e analogias em relação ao que o paciente quer ou precisa trabalhar na terapia.

 

 

Uma praça, um shopping e a beira mar…

Nestes últimos meses tive três experiências que ilustram bem a importância de se explorar diferentes ambientes para terapia. No primeiro, atendia uma executiva de Curitiba, na casa dos 30 anos; estressada pelo volume de trabalho e cobranças, ela sempre dizia adorar “voltar para casa cedo nos dias de terapia online”.  Seu apartamento era seu refúgio; um lugar em que, segundo ela mesma, era possível “fugir do barulho lá de fora”, inclusive pela distância do centro da cidade.

Em Curitiba há uma praça chamada Praça do Japão, uma homenagem à cultura japonesa, com cerejeiras, lagoas e a réplica de uma tradicional casa de chá; um pequeno oásis, cercado de prédios, linhas de ônibus, e toda sorte de escritórios e sons. Este foi o lugar escolhido para uma sessão presencial, ao meio-dia de uma quarta-feira. O ambiente fez parte de experimento terapêutico: tomar consciência e ressignificar os lugares em que ela está para criar um oásis interno, sem precisar “fugir” de quaisquer ambientes, situações ou pessoas para se sentir plena e tomar as atitudes de maneira consciente. A Praça do Japão, cercada pelos barulhos e distrações do dia-a-dia, se tornou uma analogia para sua própria mente.

Noutra experiência, atendi um jovem em processo de reconexão social, após um período vivendo como usuário de drogas. Tivemos vários encontros no consultório físico, onde conversávamos sobre o desafio de se reconectar às pessoas, estabelecer diálogos e falar sobre o período em que esteve “ausente”. Num certo dia, assim que ele chegou ao consultório, perguntei se ele estaria interessado em explorar um outro lugar para nosso diálogo semanal, então o convidei para ir ao shopping. Expliquei que se tratava de um experimento: colocá-lo num ambiente de contato sensorial com outras pessoas; onde ele pudesse ver e ser visto, ouvir e interagir (se quisesse), além de toda sorte de percepções.

O resultado foi fascinante, pois permitiu que ele ressignificasse a maneira como interpretava as ações e reações dos outros, além de criar oportunidades de diálogo com vendedores e outros clientes. Transformamos situações reais do cotidiano, a prática das relações humanas, no ambiente de reflexão e aprendizado. Os avanços deste experimento num outro ambiente terapêutico foi determinante para o empoderamento dele.

Por fim, a imagem da beira mar é algo que já parece transmitir a sensação de tranquilidade e equilíbrio. No período em que mantive minha residência em Itajaí/SC, tive a oportunidade de transformar a Praia de Cabeçudas num dos “meus consultórios” preferidos. Lá, travei diálogos vigorosos com uma paciente de 60 anos que trazia em seus temas o desafio de construir novas perspectivas para seu futuro; e tudo começou com pequenas caminhadas na areia e as histórias de sua família. À medida em que as histórias eram contadas, víamos nossos passos marcando a areia, e as pegadas sendo apagadas pelas ondas. Diversas analogias foram criadas, até que ela percebeu que suas memórias faziam parte de um exercício de escolhas: escolher o que levo comigo, aquilo que me torna mais forte. A diferença entre vivência e experiência.

Três histórias; três diferentes ambientes terapêuticos que exploram o exercício de presença plena, escuta compreensiva e comunicação assertiva, além da ressignificação; tratando diversos temas por novas e diferentes perspectivas. Lições de Aristóteles e sua Escola Peripatética; afinal reaprender envolve estar conectado à realidade, não fugir dela.

E você, qual seu melhor lugar de aprendizado? Onde sua terapia pode ser mais significativa? Explore novas experiências!

 

 

Rafael Giuliano,
transformando a prática em ambiente de reflexão!

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