Chega de culpa!

Sim, estou propondo que você pare de sentir tanta culpa! Entretanto, minha proposta está longe da simples ideia de apertar o “botão do foda-se”, como sugerem alguns livros e gurus, ou a maioria dos seus amigos mais bem intencionados.  Acredito que entre o 8 e o 80 há sempre um caminho do meio! (A resposta pode até ser o 42, hahahaha! Referência nerd, mas tudo bem!).

Antes de tudo, você precisa compreender a ideia geral a respeito do sentimento de culpa, para então experimentar viver de maneira mais plena. Começamos pelo fato de que toda culpa se baseia na idealização. No geral, sentimos culpa em quatro situações comuns: (1) ao acreditar ter falhado numa atividade ou provação; (2) nos momentos em que pensamos ter violado nossa consciência moral (aqueles ideais sobre certo e errado); (3) quando julgamos ter feito mal ou prejudicado alguém; ou (4) quando algum comportamento nosso nos faz pensar que “acertamos” todas as opções anteriores.

Quer um exemplo clássico? Veja o caso de uma mulher que ao escolher a maternidade abraça uma série de novas atividades (e provações). Dizem que “não existe manual para ser mãe”; mas aparentemente existem vários “indicadores de sucesso” (#SQN). Dizem que “não há receita”; entretanto, todo mundo parece ter uma dica infalível que faz essa mãe de primeira (ou segunda, ou terceira) viagem se sentir falhando no seu papel. Em alguns casos a mãe em questão é ainda culpada por mimar demais, ou de menos, seu filho; não há mesmo uma fórmula de como fazer, mas sobram maneiras de dizer como deveria ter sido feito.

Nesse “deveria” está a segunda característica essencial das culpas que carregamos: toda ela se baseia no Futuro do Pretérito. Complicou? Eu explico: na Língua Portuguesa, são as expressões que exprimem uma ação que seria consequente de outra que acabou por não acontecer; portanto, são nossos clássicos queria, poderia e deveria.

Pais ou mães, jovens casais recém casados, estagiárias ou gestoras, indiferente do papel ou posição, todas são alvos perfeitos para as idealizações. Então, como não sentir culpa, sem apertar o “botão do foda-se”? – você deve estar se perguntando. Minha proposta é simples, porém nada fácil: assuma a responsabilidade por aquilo que você pode fazer!

 

Responsabilidade Versus Culpa

Assumir a responsabilidade é diferente de sentir culpa, pois envolve trazer o foco para a solução, não para o problema; ao invés de se deter no que deveria ter sido feito (passado), a proposta é agir sobre aquilo que pode e deve ser feito (presente, aqui e agora); respeitando ainda o seu potencial de realização.

É fascinante perceber como a pessoa que se responsabiliza por algo passa a agir no papel de protagonista, não de vítima; e suas ações se orientam pelas próprias potencialidades, e não pela imposição das idealizações. Eis uma aprendizado importante: só assumimos responsabilidade por aquilo que acreditamos ter capacidade de realizar; se eu não acreditar que posso fazer, ajo movido por alguma espécie de culpa.

Conheci um jovem estagiário que me relatou ter fortes sintomas ansiedade sempre que seu gestor entrava na mesma sala que ele. Ouvi sua história imaginando que tipo de desavença poderia ter acontecido entre os dois; mas quando perguntei como havia sido seu processo de contratação na organização ele me contou que este mesmo gestor havia sido diretamente responsável por sua aprovação, tecendo vários elogios sobre seu rendimento universitário e as expectativas em relação à contratação. Moral da história: aquele jovem sentia o peso da culpa por ainda não estar atingindo as expectativas do gestor.

Noutro interessante caso, atendi uma avó que acreditava ter que ajudar o neto na sua dificuldade de relacionamento com o pai (filho dela); entretanto, toda vez que ela interferia na relação dos dois o conflito tomava proporções ainda maiores. Ao invés de dizer a ela que não deveria fazer isso ou aquilo, respeitei sua vontade de ajudar e juntos exploramos várias perspectivas de soluções. A cada novo cenário ela percebia que a solução dependia apenas da iniciativa do filho e do neto; reconhecendo que ela não tinha responsabilidade sobre a solução daquele conflito seu sentimento de culpa também se extinguiu.

Outro aspecto que requer atenção e reflexão a respeito da responsabilidade, em oposição à culpa: minha responsabilidade diz respeito à minha potencialidade e ao papel que assumi para mim mesmo, especialmente na resolução de um conflito; portanto, não posso querer assumir o controle sobre as ações e reações dos outros; cada indivíduo é responsável por suas próprias atitudes e papéis. Dito isso, posso até agir da melhor forma a fim de não magoar ninguém, mas ainda será escolha da outra pessoa ficar ou não chateada, ou interpretar à sua maneira alguma ação minha.

Algumas pessoas se sentem “responsáveis” pelas emoções ou sentimentos das outras pessoas. Entretanto, se não depende mais de alguma ação exclusivamente sua, a reação ou resposta do outro é responsabilidade dele; e o desconforto que você ainda sente é, na verdade, um sentimento de culpa alimentado pela sua idealização do que deveria ter feito ou dito.

Se você já compreendeu bem a diferença entre responsabilidade e culpa, chegamos num ponto crítico deste nosso diálogo; é hora de aprender a viver de maneira mais plena (portanto, sem culpa) lidando com a fonte de todo o mal (rs).

 

Onde nascem as Idealizações

Sempre gostei muito da frase “Seja a melhor versão de si mesmo!“; pena que a afirmação não venha com um manual de melhores práticas. Pessoalmente, levei algum tempo para aprender a ser a melhor versão de mim mesmo (processo ainda em contrução, claro!); inclusive para compreender que também não há uma receita pronta para isso. Mas posso compartilhar um princípio pragmático que acredito valer para você também: esqueça toda forma de comparação!

Se a culpa surge de uma idealização, toda idealização com certeza nasce das comparações. Sempre que qualquer pessoa usa uma outra como parâmetro ignora toda a história e jornada deste outro indivíduo, e a sua própria.

O maior problema gerado pela comparação, além das idealizações e, por conseguinte, das culpas que carregamos, é a desconstrução das bases dos nossos significados; a maneira como damos sentidos aos nossos afetos, aprendizados e realizações. Até porque, aquilo que é sucesso para você pode ser algo sem sentido para mim; ou vice-e-versa.

O simples fato de alguém desejar ser a melhor mãe ou pai, marido ou esposa, amigo, ou ainda um chef de cozinha, cantor de karaokê ou estagiário de engenharia, abre caminho para a comparação; então vêm as idealizações e as culpas. 

E antes que você imagine que a solução possa ser não desejar ser mais; registro que o problema continua sendo a comparação, não a ambição. Portanto, um simples exercício de reflexão pode representar o começo de uma jornada mais consciente para uma vida plena: experimente desejar ser o melhor que você possa ser; então definir seus próprios critérios, questionando seus limites para explorar todo o seu potencial; e assim assumir a responsabilidade daquilo que você pode fazer, aqui e agora, e sem culpa.

Afinal, para se viver uma vida plena é preciso reconhecer onde se deseja chegar; mas cada indivíduo precisa construir suas próprias linhas de chegada!

 

Rafael Giuliano,
jogando todos os dias sua linha de chegada um pouquinho mais para frente!

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s