Tempo, tempo mano velho…

Já faz uns oito dias que venho dedicando um bom tempo para pensar no Tempo; na maneira como ele se faz presente, passa e nos marca; na forma como eu, você, e as outras pessoas aproveitamos cada tic-tac de vida. Comecei a questionar se já chegou minha hora de o ver “correr macio”, como na música de João Daniel Ulhoa, cantada pelo grupo Papo Fu: Sobre o tempo.

Ok, você até pode pensar que se trata de alguma “crise de meia-idade”; mas o fato é que a proximidade do aniversário de 40 anos faz qualquer um pensar sobre a vida, o universo e tudo o mais. E quando você decide tirar férias no mês de aniversário as reflexões costumam ser ainda mais intensas. Então todo passeio, almoço ou visita ao museu ganha outra dinâmica; assim foram meus primeiros dias em Barcelona, e estes últimos em Paris.

 

Comer, andar e PARAR para apreciar!

Barcelona proporcionou minha própria experiência ao estilo “Comer, rezar e amar”; e tudo já no segundo dia! Depois de uma viagem que durou 25 horas no total, peguei-me correndo pra lá e pra cá logo depois da minha chegada na cidade; à noite caí na cama morto e me deixei levar pelo cansaço e as primeiras impressões da viagem.

Na manhã seguinte algo já havia mudado. Quando o despertador tocou eu simplesmente o desliguei, virei para o lado e sonhei; não era mera preguiça ou cansaço, eu havia decido experimentar um outro ritmo. Levantei-me quando ouvi minha anfitriã caminhar pela casa; já eram 10:30 da manhã.

Ficamos conversando e bebericando café até por volta das 13:00; só então descemos para comer; o que por si só já é uma experiência fascinante em praticamente toda a Europa, mais pela dinâmica do que pelo cardápio.

É comum você encontrar lugares que oferecem um “Menu” para o almoço, incluindo a entrada, prato principal, sobremesa e bebida. Você deve estar pensando na quantidade de comida, e no que isso tudo tem a ver com o tempo, mas está vendo pela perspectiva comum… O fato de haver três pratos significa que também há dois intervalos durante a refeição; tempo para pensar, conversar e saborear.

A experiência começa pela escolha entre as diferentes opções de entrada e prato principal, o que requer tempo e atenção; e se você tenta pedir a sobremesa logo de cara, quando está pedindo os dois primeiros pratos, o garçom diz, de uma maneira às vezes não tão delicada, que esta escolha é para depois (rs). Então surgem os intervalos entre os pratos; quando as conversas, ou reflexões, fluem de maneira ainda mais tranquila, sem bocas cheias.

Depois do almoço me peguei de novo no frenesi de um ritmo acelerado; fui ao centro, rodei pelo Mercado de La Boqueria; cheguei até o Museu Nacional de Arte da Catalunha, onde fiz uma visita muito rápida, pois já tinha outro compromisso para noite; então saí correndo para assistir um espetáculo no Palácio da Música Catalã. Quando cheguei para retirar os ingressos soube que precisava fazer isso online, o que se revelou ser um grande desafio num sistema nada amigável, somado à minha impaciência e o receio de perder o início da apresentação. Pressa, indignação e uma boa dose da Lei de Murphy faz com que o tempo voe, quando não se tem nenhum tempo a perder. Superados os obstáculos tecnológicos, subi as escadas correndo, como era de se esperar de alguém com pressa; tudo para ser barrado na entrada por dois simpáticos rapazes que pacientemente encaminhavam as pessoas, uma a uma, até seus assentos, enquanto o pianista e o barítono já estavam posicionados no palco.

Quando o espetáculo começou, respirei fundo e me deixei levar por um outro ritmo, rápido e ao mesmo tempo suave; era o allegro da primeira peça sendo iniciada. Precisei me reconectar àquele momento presente; já não importava o corre-corre ou a impertinência das pouco prestativas “meninas da bilheteria”, eu só precisava estar ali, plenamente presente naquele momento.

Barcelona havia testado minha relação com o tempo, trazendo à minha consciência algo que eu e você sempre dizemos já saber, mas que às vezes esquecemos. Foi com esta lição que deixei a cidade a caminho de Paris.

 

Um lugar chamado Beauvais.

Na tentativa de economizar em passagem para gastar mais em vinho, cheguei à França pelo aeroporto de Beauvais, uma pequena cidade há 69 km de Paris; um trajeto comum para quem opta por voar com a Ryanair, que usa este aeroporto como base. A viagem é bastante simples, e ao sair da aeronave você já encontra os totens de compra da passagem de ônibus para Paris.

Quando me dei conta, haviam filas imensas das pessoas que queriam pegar o primeiro horário de partida; enquanto isso, eu estava mais curioso em saber o que tinha em Beauvais. Vi quais eram as outras opções de transporte até Paris, então chamei um Uber para explorar a cidade.

No trajeto até o centro da vila conversei com Moustapha, condutor do carro, que ficou surpreso por eu não ir direto para Paris e parar para conhecer o lugar. Ele me falou sobre a tranquilidade de morar ali, do baixo custo de vida e da arquitetura com tijolos vermelhos; até me deixar à porta da catedral.

A vila é muito pitoresca. As pessoas dizem bonjour (bom dia) a você quase todo o tempo; saem das boulangers (padarias) comendo suas baguetes puras; e caminham debaixo da fina garoa como se houvesse sol. 

Você talvez não tenha ideia como é entrar num prédio que começou a ser construído em 910 (sim, sem o “1” na frente); esta é a história da Catedral de Beauvais. A vila tem pequenos jardins com flores por todos os lados. Eu me senti como se estivesse no cenário de um filme; um figurante muito feliz!

O simples ato de mudar um pouco os planos, parar e explorar o que o momento tinha a me oferecer; esta experiência tornou a chegada à França simplesmente EXTRAordinária. Afinal, talvez não houvesse outra oportunidade; então o momento era aquele.

 

“Si pas maintenant, quand?” (Se não for agora, quando?)

Já em Paris, voltamos à programação normal; será? Uma lição só foi realmente aprendida quando o conhecimento é posto em prática.

Você pode imaginar a quantidade de dicas e “recomendações” de lugares para visitar que eu havia recebido; mas tudo o que fiz quando cheguei foi passar no mercado, comprar uma baguete, frios e um vinho, para então curtir a noite de sexta-feira em casa (sim, afinal o Airbnb nos dá a chance de dizer que estamos “em casa”, mesmo do outro lado do oceano).

Preciso confessar que cedi a uma das “recomendações” e fui a Museu do Louvre. Sim, via a bendita Monalisa, mas de longe. Tirei um total de três fotos do que me chamou realmente a atenção: duas do teto das escadarias, e uma do quadro “A Grande Odalisca”, de Jean-Auguste Dominique Ingres. Do mais, o Louvre se revelou um grande Observatório Antropológico.

As pessoas se acotovelavam por uma foto diante da estátua da Vênus de Milo; registravam tudo e qualquer coisa que surgisse diante de seus olhos, sem ao menos apreciar de fato qualquer obra. Não todos, claro; mas a grande maioria.

A cena mais icônica que vi foi no salão das estátuas quando uma jovem, aparentando ser estudante de artes, estava de pé com um bloco de desenho nas mãos, recriando a peça “Centauro e Eros”. A grande massa humana a ignorava; as pessoas ficavam entre ela e a peça para tirar fotos enquanto os olhos já procuravam o próximo alvo. Impossível não comprar aquela apreciadora e todas as outras pessoas ao seu redor.

Enquanto procurava pela saída, passei por um outro salão onde um senhor passeava com ar despreocupado, com o braço levantado segurando o celular um pouco acima da cabeça. Ao cruzar por ele olhei para traz e vi que filmava tudo ao redor, sem nenhuma preocupação com foco, luz ou detalhe algum. Outro exemplo que me fez olhar para minhas próprias atitudes.

Quando saí do museu, fiquei me perguntando se aquela seria a Paris que eu desejaria levar na memória. No fundo, queria uma experiência mais autêntica e verdadeira; algo naturalmente parisiense. Foi quando ouvi as sirenes da polícia. Algo acontecia na cidade.

Na região da Place du Châtelet, uma manifestação organizada pelo movimento Extinction Rebellion parou o trânsito ao estilo “Ocupando Wall Street”. Com um discurso de desobediência civil pacífica, eles trouxeram vida para rua, com música, arte e palavras de ordem sobre os riscos de extinção da vida, sobretudo humana. Eu me senti numa cidade de verdade, caminhando entre pessoas que se importam com algo, e lutam por isso.

Quando saí da manifestação, caminhei pelas ruas de uma Paris repleta de pessoas saindo de seus trabalhos; muitas, ao invés de correrem de um lado para o outro, estavam se sentavam em bancos ou cafés. Fiquei feliz ao perceber que em sua grande maioria elas pareciam apenas apreciar o momento; fazendo as pazes com o tempo.

Este é o conhecimento que compartilho com você hoje: se desejar que o tempo corra mancinho, trate-o verdadeiramente como um mano velho

Experimente fazer as pazes com seu tempo!

 

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.

Rafael Giuliano,
vivendo cada momento como único!

2 comentários sobre “Tempo, tempo mano velho…

  1. E desejamos controlar tudo, inclusive, “o nosso” tempo.
    Como se este intocável estivesse ao alcance das nossas mãos
    dos nossos desejos, até mesmo, da realidade tal qual a observamos e imaginamos

    Nada mais do que uma suposta gestão cronológica é o que fazemos
    Compreendemos a sua existência tanto quanto a nossa própria
    Estamos contidos neste que nos controla

    Fazer as pazes com o tempo é considerar que este sabe o que é paz.
    No máximo, fazemos as pazes com nós mesmos.
    Vagante ou inerte, o tempo nem sabe que existe, que passa, que chega, que acaba ou começa…
    Muito menos que tem um nome, o Tempo.
    Entretanto, como tudo que nos circunda, humanizamos.
    Este descohecido, dimensionamos.
    Perspectivas que parecem dar conta das incertezas.
    Se o tempo pudesse dar um conselho para quem morre, qual daria?

    Profiter du voyage mon ami!

    Curtido por 1 pessoa

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