Sou um bom amigo de mim mesmo?

Desde que conheci a Filosofia Estóica seus ensinamentos estiveram presentes na minha maneira de existir no mundo e na forma como vivencio minhas relações de afeto com os outros. Entretanto, enquanto lia hoje as cartas de Sêneca a Lucílio, traduzidas magistralmente por Alexandre Pires Vieira, me provoquei a  seguinte reflexão: sou um bom amigo de mim mesmo?

 A pergunta, que você pode até achar pueril, surgiu quando Sêneca compartilha com Lucílio estas palavras dos escritos de Hecato: “Que progresso, você pergunta, eu fiz? Eu comecei a ser um amigo de mim mesmo”. O autor da carta (Sêneca) traz a citação como parte da sua “pequena contribuição diária” de conhecimento para com seu destinatário (Lucílio); e complementa a reflexão com as próprias palavras: “Isso foi realmente um grande auxílio; tal pessoa nunca pode estar sozinha”.

Ao ler a citação, fui tomado pelo desejo de rever minhas atitudes em relação a mim mesmo! Se na construção do afeto pelo outro percebo a importância da presença plena, escuta compreensiva, ressignificação, comunicação assertiva e protagonismo interventivo, será que exerço todos estes princípios na construção do afeto por mim? Estou agindo como um bom amigo de mim mesmo?

 

Exerça a amizade por você mesmo!

Com o passar dos anos, aprendi que a melhor forma tanto de aprender quanto de ensinar consiste em experienciar o conhecimento. Por isso defendo a ideia de sempre transformar a prática em ambiente de reflexão (algo que aprendi com meus mestres no Instituto Faber Ludens). Desta forma, busco transformar em atitudes todo conhecimento que adquiro; é assim que ensino pelos exemplos, até mais que por palavras ditas ou escritas.

Hoje, reconheço o valor de estar plenamente presente em cada momento compartilhado e também naqueles de solidão; escutando de maneira compreensiva a mim mesmo para ressignificar algumas crenças e medos; muitas vezes dizendo em voz alta o quanto acredito em mim e naquilo que estou realizando; a fim de assumir meu próprio papel de protagonista.

Você talvez não imagina como é fascinante para mim ler esta última frase que escrevi, já com os olhos marejados, lembrando dos momentos de solidão transformados em solitude; a criação consciente de um momento para eu passar comigo mesmo, meus pensamentos, leituras e reflexões; e até com minha própria voz.

Em tempos de tanta crítica ao individualismo, receio que muitas pessoas ainda não conseguiam distinguir a vontade de estar junto dos outros daquele medo inconsciente de estar apenas consigo mesmas. E nesta constante fuga da solidão, deixam de experienciar a amizade interior; a construção de uma relação de afeto que envolva a admiração, cuidado e saudade de si mesmas.

 

“Desejo que você tenha sempre a quem amar…”

Sim, é um refrão de música! Se você ainda não lembrou, faz parte da letra de “Amor Pra Recomeçar”, do Barão Vermelho, composta por Frejat. Pura poesia!

Confesso a você que demorei algum tempo até perceber que todas as vezes em que consegui recomeçar de algum ponto eu o fiz por amor a mim mesmo; por acreditar no meu potencial, e reconhecer que precisava cuidar mais de mim para, só então, poder oferecer meu melhor aos outros.

Por isso, se hoje me for permitido compartilhar contigo um pequeno conselho é que você possa cultivar uma extraordinária amizade por você; assim sempre haverá a quem amar e toda solidão poderá se tornar solitude.

Termino esta carta da mesma maneira que Sêneca escreve a Lucílio…

 

Mantenha-se Forte. Mantenha-se Bem.
Rafael Giuliano,
o melhor amigo de mim mesmo!

5 comentários sobre “Sou um bom amigo de mim mesmo?

  1. Seneca tem sempre ótimas lições, talvez as melhores são aquelas que de tão óbvias, ignoramos. É nesses pequenos vãos do discuido que as contradições emergem. Apresentarei minha reflexão posteriormente. Parabéns pela importante e zelosa reflexão. Siga escrevendo, sigo aprendendo.

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  2. Após ler o texto, fiquei refletindo sobre a expressão “amigo de si”. Normalmente nos é cobrado amor próprio, a autovalorização, o autoconhecimento (…) – Inclusive aqueles posts de redes sociais como “você namoraria a si mesmo?”. Lembrando que este valor de amor próprio é incentivado muitas vezes por dogmas religiosos.
    Mas como amar se não há compreensão, diálogo, entendimento ou reconhecimento? – Para não dizer empatia.
    Já que dizem que amizade soma parte dessas virtudes e que “é um amor que permanece” (o que eu não tenho a menor dúvida que seja verdade). Mas é incrível que somos amigos de tantos indivíduos e tão pouco de si mesmo.
    Auxiliando-os com seus problemas, dramas e dilemas; sorrimos com suas vitórias, trapalhadas e momentos às vezes nada fofos. Porém, quantas vezes rimos de nós mesmos, ou choramos por nossos momentos e nem se quiser nos auto-estendemos as mãos. Sem contar que se chegamos ao êxito nos colocamos a frase “não fiz mais que a minha obrigação”.
    Quantas vezes nos elogiamos, porque as críticas… Ah! As críticas isso somos mestre em fazermos, apontando o dedo para o espelho e jogar as falhas ou fragilidades “como você é…”, mas pouco olhamos para si e dizemos “você pode ser…”
    Essa criticidade desacerbada, muitas vezes sendo mais comparativa com a realidade alheia do que necessariamente real, também ceifa nossas forças e potencialidades, já que o número de publicações de autoajuda vem justamente mostrar que pouco sabemos conviver consigo mesmo (redundante eu sei…).
    Porque ao olharmos para um espelho buscamos encontrar aquele amigo que pouco fala, mas com certeza está conosco a todo instante: o nosso melhor lado.

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