No conflito entre pais e filhos, quem precisa de terapia?

Se você tem filhos, o título já deve ter provocado algum desconforto; o que é ótimo! E considerando que você também é descendente de alguém, pode se desconfortar de novo. Mas afinal, no conflito entre pais e filhos, quem precisa de terapia?

Em primeiro lugar é bom lembrar que talvez nem toda pessoa precise de terapia, mas todos nós merecemos; esta é minha resposta quando alguém me pergunta se, diante do seu momento de vida, precisa ou não procurar por terapia. Em segundo lugar é preciso reconhecer que a resolução de qualquer conflito começa pela pessoa que busca a solução.

No meu trabalho e experiência, a história quase sempre começa da mesma maneira: o telefone toca e do outro lado da linha a pessoa se apresenta como amiga de alguém que indicou meu trabalho como terapeuta. Sem saber ao certo como funciona, a pessoa começa imediatamente a descrever os “problemas em casa”. Os casos variam, especialmente em relação às idades dos filhos, que vão dos 14 até a cerca de 30 anos; já os temas costumam ser mais comuns e envolvem o consumo de drogas, homossexualidade, falta de perspectiva profissional ou agressividade nas relações familiares; ou ainda a junção dos quatro, nos cenários mais complexos.

Estas ligações são momentos de acolhimento. Escuto tudo com a máxima atenção sem fazer muitas intervenções ou perguntas, a fim de não direcionar a narrativa da outra pessoa. Surgem sinais de raiva e inconformação, seguidos pela demonstração de decepção e autoculpa, por fim o sentimento de angústia ou remorso por não saber mais o que fazer em relação aos problemas do filho. O foco é o filho; ele é a causa da ligação; mas como já comentei, é preciso compreender que a resolução de qualquer conflito começa pela pessoa que busca a solução.

 

O desafio de focar na solução!

Os pais, como cuidadores, querem resolver logo o problema, o que é compreensível! Mas a pressa faz com que ignorem as verdadeiras causas por detrás da situação vivida por seus filhos. Buscam por um culpado ou inimigo para responsabilizar e atacar, dando assim todo foco ao problema, não à solução. Às vezes enxergam a si mesmos como “culpados”, o que coloca eles e os filhos em lados opostos, de onde cada um passa a defender posições; ficam todos na defensiva.

Os filhos, que estão já estão vivendo uma situação desafiante, começam a ver o envolvimento dos pais como um agravante ao problema; e assim nasce grande parte dos conflitos nas famílias: pais que desejam ajudar seus filhos, sem saber mais o que fazer, que passam a fazer parte do problema por não conseguirem focar na solução.

Eis o desafio para pais, ou qualquer pessoa que pretende ajudar uma outra pessoa: para fazer parte da solução é preciso dar foco à solução, além de se preparar para oferecer o suporte necessário; e é aqui que pode entrar em cena a terapia.

 

Terapia é muito mais do que “resolver problemas”!

A grande maioria das pessoas ainda relaciona o fazer terapia com ter problemas, mas a verdade é que todos nós vivemos situações desafiantes, de conflitos ou contradições, de maior ou menor grau. Aqueles que optam pela terapia demonstram estar em busca de uma solução, que pode incluir o propósito de aprender a lidar melhor com os outros e oferecer o suporte àqueles que amam.

Filhos não vêm com manual! Aliás, para quem tem mais de um, às vezes é um desafio compreender como é que dois podem ter saído tão diferentes de um mesmo seio familiar. Estes fatos parecem não diminuir o sentimento de angústia dos pais; mas devem contribuir para a reflexão de que nunca é tarde para buscar por conhecimento e orientação, a fim de lidar melhor com as adversidades dos outros e nossas próprias contradições.

A terapia, em especial a Terapia Afetiva, envolve a tomada de consciência de nossas bases emocionais e a maneira como construímos nossas relações afetivas; de tal maneira que possamos lidar com as adversidades das outras pessoas, além das nossas próprias. Por isso, muito mais do que “resolver problemas”, o processo terapêutico compreende aprender a distinguir aquilo que é próprio de minha essência daquilo que pertence à essência do outro; respeitar as atitudes e comportamentos dos outros como os meus próprios, e agir com a clara e consciente intenção de promover uma solução.

Dito tudo isso, repito: talvez nem toda pessoa precise de terapia, mas todos nós merecemos; e a resolução de qualquer conflito começa pela pessoa que busca a solução. Por este motivo, sempre que os pais me procuram eu proponho que possamos começar o processo terapêutico por eles; reforçando suas habilidades afetivo-emocionais para lidar com os filhos, dando foco à solução.

 

E a recíproca é verdadeira, quando os papéis se invertem!

Não, o texto ainda não acabou! Afinal, nem sempre são os pais que me ligam! Há casos em que os filhos assumem, mesmo que temporariamente, o papel de cuidadores. As idades dos pais variam bastante, indo da cada dos 50 aos 80; já os temas costumam ser mais comuns e envolvem os gastos financeiros sem controle, comportamento rebelde ou “excesso” de carência afetiva; ou ainda a junção dos três, nos cenários mais complexos (hahaha).

Nestes casos, lembro aos filhos que os pais também passam por constantes mudanças, especialmente em relação às perspectivas sobre a vida, o universo e tudo o mais (livre inspiração em Guia do Mochileiro das Galáxias); o que pode gerar conflitos internos e externos, além de muitas contradições. Então os convido para conversar sobre como aprender a lidar com os próprios pais, antes de tentar “resolver o problema” (que na verdade eles nem sabem ao certo qual é).

Uma lição importante: quem busca pela solução dá os primeiros passos na direção da resolução de um conflito; mas nunca será a única e exclusiva responsável pela solução.

Que possamos assumir o papel de dar os primeiros passos, para então compartilhar com a outra pessoa o papel na solução!

 

Rafael Giuliano,
acreditando que todos merecem terapia, e tendo a honra de acompanhar diversos primeiros passos em direção à resolução de conflitos!

3 comentários sobre “No conflito entre pais e filhos, quem precisa de terapia?

  1. Adorei o texto! Muito interessante e importante a reflexão de que a resolução do conflito começa pela pessoa que busca a solução. Já presenciei alguns casos, quando sugerida a terapia para alguma pessoa, em que o indivíduo se coloca na defensiva e responder (quase atacando): “eu não preciso de terapia, quem precisa é ele(a)”.
    Alguns costumam ter uma visão muito equivocada do que é terapia e o que é um processo terapêutico. E, como colocado por você, muitas vezes, não trata-se de uma questão de precisar, mas sim de merecer.
    Talvez, o que permeia a mente coletiva seja aquela imagem tediosa do sujeito deitado em um divã.
    Talvez seja um misto de equívoco com o medo de olhar para os próprios afetos e reconhecer-se como um partícipe ativo das relações (principalmente das conflitantes) das quais faz parte. E a partir desse reconhecimento, perceber que é preciso sair da defensiva, responsabilizar-se (pela parte que o cabe) e agir.

    Curtido por 1 pessoa

    1. Seu comentário oferece reflexões que já dariam um novo texto Felipe! Principalmente sobre o “olhar para os próprios afetos”; afinal quando assumo começar a terapia por mim mesmo estou disposto a encarar a maneira como EU vejo o mundo, o outro e a mim mesmo!

      =D

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