Remorso e Ressentimento.

Existem diversas armadilhas que nos impedem de alcançar uma vida plena. Dentre elas, o remorso e o ressentimento se destacam por serem sentimentos alimentados por nós mesmos; e que desencadeiam comportamentos de autossabotagem afetiva.

Estas duas armadilhas possuem uma semelhança e uma diferença essenciais. Ambas compartilham o mesmo Tempo de Origem: o passado; elas se baseiam em fatos ou situações que já ocorreram e não podem ser mudados, apenas ressignificados. Já a diferença está na Dinâmica de Origem: de quem partiu a ação que despertou o sentimento.

O remorso está relacionado às nossas ações e escolhas; e pode se originar em algo dito, uma decisão tomada ou mesmo quando renunciamos a responsabilidade de agir. No consultório, na grande maioria das vezes este sentimento surge em histórias de discussões acaloradas entre casais; mudanças de cidade ou trabalho que geraram arrependimento; ou ainda em narrativas que descrevem pequenas ou grandes omissões, quando a pessoa reflete que deveria ter feito algo que não fez e esta não ação a persegue na forma de culpa.

Por outro lado, o ressentimento é provocado pelo significado que damos àquilo que nos é oferecido pelo outro; podendo ser uma crítica, uma ação levada para o “lado pessoal” ou ainda a ausência de um ato; seja de carinho, cuidado ou simples atenção. A pessoa ressentida se torna refém do afeto (ou desafeto), passando a viver presa àquele momento da sua história. É comum ouvir das pessoas verdadeiras manifestações de ódio; um rancor que as consome e sequestra a vontade de fazer quaisquer outras coisas, movidas pelo desejo de “resolver o problema”, mas agindo de maneira que apenas reafirma o próprio ressentimento. É como dizia Carrie Fisher:

 

“Ressentimento é como beber veneno
e esperar que a outra pessoa morra.”

 

Quando nos tornamos reféns destas armadilhas emocionais, seja pelo remorso ou ressentimento, deixamos de apreciar e viver o momento presente; único lugar em que podemos, de fato, agir com consciência. Ao não conseguir estar plenamente presente em sua própria vida e relações, a pessoa pode passar a se sabotar; seja por não acreditar que merece novas conquistas ou momentos de satisfação (pelo remorso), ou por querer “resolver o problema do passado” antes de “seguir com sua vida” (manifestação do ressentimento).

Diante destas reflexões, toda pessoa que se perceba presa num ciclo de autossabotagem precisa exercitar sua consciência e reconhecer o remorso ou ressentimento que possam ser possíveis fontes deste comportamento; então lidar com estas armadilhas emocionais.

A primeira atitude é se reconectar ao presente e se concentrar naquilo que pode ser feito no hoje. Cumprido este primeiro grande passo (e desafio), há diferentes maneiras de lidar com cada uma das armadilhas.

Quando reconhecemos o remorso e a ação (ou não ação) que o desencadeou é preciso escolher uma nova atitude intencional, que tenha um propósito consciente e capaz de mudar a situação no presente, não no passado. O indivíduo por reconhecer seu erro, pedir desculpas, dizer hoje aquilo que não conseguiu expressar na ocasião, contribuir com ações mais diretas no presente, ou simplesmente agradecer pela experiência que o tornou hoje diferente de como ele fora no passado. Todas estas condutas contribuem para que o ciclo da vivência possa ser fechado e a vida possa seguir seu fluxo.

Agora, ao reconhecermos o ressentimento e a atitude do outro que a desencadeou surge a necessidade de ressignificar aquilo que recebemos. Diferente da ideia de “olhar o lado positivo”, ou de simplesmente tolerar o ocorrido, a ressignificação é um convite à compreensão; pergunta-se sempre “e o que mais?”, num exercício exploratório de consciência que se traduz em diferentes questões: Qual era a real intenção do outro? Como ele se sentia naquele momento? Qual era o cenário em que nos encontrávamos? Quais terão sido as influências, internas e externas, para sua atitude? De que maneira eu mesmo contribuí para ela?

Estas respostas contribuem para uma compreensão mais ampla e sistêmica dos fatos que cercam a atitude do outro. Desta forma a pessoa pode distinguir aquilo que pertence mesmo a ela (do EU) daquilo que é do outro; percebendo muitas vezes que a agressividade não era de fato dirigida a ela; ou que talvez houvesse uma corresponsabilidade sua na ação desencadeada pelo outro. Por meio deste exercício é possível aprender a respeitar a atitude do outro e escolher agir de maneira mais consciente; como já abordado no texto “Desapego e relações de afeto“.

Nas palavras de Aldous Huxley:

 

“Experiência não é o que acontece com um homem;
é o que um homem faz com o que lhe acontece.”

 

Escolha transformar em boas experiências as vivências que tornam sua vida o que ela é; extraindo lições e aprendendo a tornar cada possível remorso numa nova atitude assertiva e cada possível ressentimento numa nova maneira de olhar as pessoas e a si mesmo.

 

Rafael Giuliano,
sem remorsos ou ressentimentos; apenas alguém melhor a cada experiência de vida!

4 comentários sobre “Remorso e Ressentimento.

  1. Parabéns mais uma vez pelo excelente texto e argumentos bem alicerçados. Apenas faço uma pequena provocação no sentindo de pensarmos que tanto o ressentimento quanto o remorso, como movimentos involuntários ou voluntários da consciência, emergem como mecanismos de auto-defesa e de auto-conhecimento. A ressignificação dessas reações humanas às contradições que a vida apresenta, que nos direciona para esses sentimentos, em geral carecem de tempos diferentes em cada Eu que as sente. Tenho a impressão que nem percebemos, na maioria das vezes, estarmos imersos nesses movimentos de remorso e ressentimentos. Menos ainda, percebemos que são eles que desencadeiam outros tantos tão importantes para o processo de conscientização da realidade como a raiva, a tristeza, a culpa, o vazio, etc. Me parecem todos motores da mudança de um estado emocional não desejado para outro diferente. Eis então que ressignificar pode ter sentindo nebuloso para muitos “Eus”. Ressignificar não seria também uma forma de auto-engano para minimizar sentimentos indesejados da experiência individual? Me remete ideia “Poliana de ser”, de aceitação, de que somente o otimismo é bom e necessário para apaziguar as contradições que a vida nos apresenta. Seria essa a nossa essência?

    Curtido por 1 pessoa

    1. Então Marcelo, eis o desafio: ressignificar é diferente de “ver o lado positivo” (jeito Poliana de ser).
      Na essência do processo (e desafio) de ressignificar está o exercício de transformar vivência em experiência (conceito que estou elaborando num novo texto para o Instituto Konscio); quando olhamos para aquilo que nos acontece (a vivência que nos afeta ou afetou) e extraímos aprendizados que nos transformam (experiências que levamos conosco).
      Dito isso, ressignificar não é “mudar o fato pela interpretação”; envolve muito mais olhar para si mesmo, valorizando a pessoa que você “está” agora após aquela vivência; reconhecer aquilo que você levará para você, inclusive para que não seja tão impactado, negativamente, caso haja uma recorrência.

      A ressignificação é um dos Princípios Relacionais da Conscienciologia Humanista; e está em desenvolvimento no grupo de pesquisa e reflexão do Instituto Konscio. Logo teremos este tema trabalhado na forma de artigo para compartilhar também. =D

      Curtido por 1 pessoa

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