Desapego e relações de afeto!

A ideia de desapego voltou com força aos debates públicos e também as reflexões pessoais. São inúmeros os vídeos, artigos e livros que tratam deste tema; seja em relação à felicidade, o minimalismo ou as diferentes formas de lidar com as perdas. Mas como o desapego pode contribuir, de maneira apreciativa, na construção de nossas relações de afeto?

Para responder esta pergunta, primeiro é preciso lembrar que nos habituamos a pensar no afeto como toda forma de sentimento; a demonstração de carinho, amor ou cuidado. Entretanto, afeto é tudo aquilo que nos afeta; nos toca de alguma forma, com o poder de mudar ou transformar nossa maneira de pensar, significar e nos relacionar. Por isso, é preciso ter a consciência que somos afetados tanto quanto afetamos os outros, o tempo todo.

Em segundo, é imprescindível quebrar dois paradigmas criados pelo senso comum; afinal, o desapego se tornou sinônimo de: (1) abrir mão de coisas, desejos e até pessoas (quase sempre se questionando: “serve ou não serve mais para mim?”); (2) demonstrar indiferença ou a falta de amor por alguém. No entanto, o desapego pode também ser apreciado como uma forma consciente de voltar nosso olhar, atenção e energia para aquilo que nos é essencial; ou ainda para situações sobre as quais podemos e devemos agir.

Para a Conscienciologia Humanista, o desapego vai muito além da ideia de “abrir mão” ou “ser indiferente”; ele está ligado à prática de distinguir o eu do outro e, a partir desta simbólica separação, construir relações de afeto muito mais conscientes e saudáveis. Mas como?

Uma forma é exercendo nosso Protagonismo Interventivo; quando assumimos nosso papel de corresponsáveis pela construção da nossa realidade, mas sem desempoderar o outro ou anulá-lo. O que é mais do comum do que se pensa.

Vamos construir um exemplo; imaginemos uma mãe que se importa demais com seus filhos (adolescentes ou adultos). Ela os ama e lhes deseja o bem; porém, por mais que acredite agir da melhor maneira para gerar o bem estar deles suas ações parecem criar o efeito contrário. Os filhos criticam as interferências da mãe, não reconhecem o valor de suas iniciativas e acabam se afundando cada vez mais em comportamentos autodestrutivos ou de autossabotagem.

Noutro exemplo, imaginemos um casal em crise há algum tempo. Independente das diversas iniciativas que a esposa continua tomando, a relação vem se desgastando e seu companheiro parece não a respeitar mais; agindo de maneira grosseira, inclusive diante os outros.

Estes são dois casos comuns no consultório onde sou procurado por diferentes pessoas, ora no papel da mãe ora da esposa, que buscam responder uma pergunta simples: O que estou fazendo de errado?

Ouvindo diversas histórias, é fácil perceber que muitas vezes as pessoas tentam agir pelos outros, não por si mesmas; desempoderando aqueles a quem se deseja ajudar ou envolver na solução. A descrição dos sentimentos parece confusa e a pessoa já não sabe o que é seu e o que é do outro; o que faz com que tudo que seja dito e feito pela pessoa pareça ser ao outro uma decisão unilateral, imposta e desrespeitosa.

Quando levanto esta reflexão nos atendimentos acabo ouvindo uma outra pergunta: Mas então eu não devo fazer nada? Neste ponto, lembro que o “não fazer nada” também é uma forma de agir; mas que até esta decisão precisa ser consciente. Assim chegamos à resposta de como exercer nosso Protagonismo Interventivo, em três momentos distintos na relação entre o eu e o outro:

  1. o momento de DISTINGUIR;
  2. o momento de RESPEITAR;
  3. o momento de AGIR.

O primeiro momento deve ser o mais desafiante, pois distinguir envolve reconhecer a diferença entre o eu e o outro; separar e compreender as diferenças, seja na maneira de significar a valorizar fatos, situações e sentimentos, ou ainda na forma de pensar e tomar decisões.

É olhar para o outro percebendo quais são os valores que norteiam suas ações; como quem olha a atitude do outro e se pergunta: e o que mais? O que está por detrás de cada ação? O que move aquela pessoa (filhos ou cônjuge) a agir desta ou daquela maneira? E por que eu ajo ou agiria de maneira diferente? Quais os meus valores, vontades e motivações?

Só quando deixamos claro essas diferenças, e distinguimos o eu (minha maneira de pensar e agir) do outro (a forma de pensar e agir daqueles afetados por nós) é que começamos a estabelecer o respeito nas nossas relações de afeto.

A partir do momento em que reconheço o outro como alguém diferente (na forma de pensar, agir e valorizar), passo a expressar meu respeito; percebendo o valor nas suas atitudes, tentativas, iniciativas ou na sua simples singularidade.

Esta conexão de respeito nos permite agir de maneira mais consciente, seja na escolha das palavras para propor críticas, conselhos e opiniões, ou na forma de nos oferecer para colaborar (trabalhar junto) na solução para quaisquer adversidades; respeitando aquilo que podemos e devemos fazer sem tirar do outro seu poder e dever de agir por si próprio.

Diante de toda esta reflexão é possível perceber que o desapego, como uma forma consciente de voltar nosso olhar àquilo que nos é essencial e sobre o que podemos e devemos agir, contribui de maneira significativa para a construção das nossas relações de afeto.

É imprescindível aprender a desapegar; separar o eu do outro, respeitando a forma de pensar e os valores de cada um para que possamos agir de maneira mais consciente em nossos afetos.

Experimente exercer o seu protagonismo. Desapegue-se, simplesmente escolhendo essencialmente aquilo que de fato você pode e deve fazer por si mesmo e pelo outro.

 
Rafael Giuliano,
Terapeuta e Conscienciólogo Humanista

5 comentários sobre “Desapego e relações de afeto!

  1. Gostei muito do teu texto. Um novo ver sobre o termo desapego. Confesso que para mim sempre teve um sentido de largar. Mas o teu texto me deu nova perspectiva sobre uma palavra que eh algumas vezes “pesada”. Bjo

    Curtido por 1 pessoa

    1. Pois então Regina, esta ressignificação da ideia de se desapegar também nos permite compreender melhor tanto nossa vontade ou necessidade de nos distanciarmos quanto a decisão de algumas pessoas em fazê-lo.

      Ao percebermos o movimento da separação (“distinguir”) é possível também respeitar a decisão e escolher a melhor maneira de agir; ainda que seja um desafio diário ter essa consciência.

      =D

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