Separação Conjugal – término ou transição?

Primeiro a pergunta que não quer calar: Por que falar de separação logo no início do ano? Simples: porque faz todo sentido; afinal se um ano “iniciou” é porque um outro “terminou”. Isso faz da “virada de ano” uma analogia perfeita para falar de separação: como na virada do ano, nossas vidas não “terminam” com o ano velho, elas apenas mudam; assim como a vida, nossas relações estão em constante transição.

É comum ouvir a expressão “terminei minha relação” ou “terminei com ele”, como se a relação afetivo-amorosa fosse algo que acabasse de maneira definitiva. A verdade é que toda separação envolve uma mudança na relação entre as pessoas envolvidas, muito mais do que um fim propriamente dito; e reconhecer isso não é uma tarefa fácil.

A grande maioria das pessoas envolvidas num processo de separação deseja que “tudo acabe logo”. O término de um relacionamento remete à ideia de fracasso e faz com que as pessoas passem a pensar nas escolhas feitas e “oportunidades perdidas”; especialmente se a decisão não tiver sido sua, mas da outra pessoa. O sentimento de “tempo perdido” provoca um desejo de realizar “tudo o que não fiz, e sempre quis” de uma só vez. Entretanto, essa forma de pensar a separação como um término que precisa acabar logo impede que as pessoas tomem consciência das mudanças que ocorrem; na fuga, ignoram as transformações pelas quais passam seus sentimentos e deixam de ressignificar essas emoções.

Da mesma maneira como descrevi no texto “Namoro ou Amizade?“, não há um manual de como agir na separação; assim como não há regras fixas para o namoro, noivado ou casamento. Nossas relações afetivas requerem muito diálogo e uma boa dose de mediação para se tomar consciência daquilo que acontece conosco.

 

Acaba, acaba, mas não desata!

“Eu já terminei com ele faz três meses e ainda não consegui esquecê-lo. Às vezes me pergunto se ainda gosto dele; ou se é só raiva por conta da traição, sabe?”; foi assim que um jovem rapaz de 35 anos começou a me contar sua história. A relação com o companheiro (como ele se referiu) havia durado três anos e “terminou” após a descoberta da traição. “Quando eu descobri fiquei sem saber o que fazer. A gente tinha toda uma vida juntos; um apartamento, cachorro, contas… Acabei desabafando e contando tudo para nossos amigos. No começo ninguém sabia o que dizer; mas então ficaram do meu lado e começaram a fazer pressão para eu terminar tudo. Aí acabou”.

Todo o processo, segundo ele, foi muito rápido. Apenas separaram os bens e distribuíram as contas que precisavam ser pagas. A decisão mais complicada envolveu a “guarda” do cão, que acabou ficando com o companheiro. Quando perguntei se eles se deram a oportunidade de conversar sobre como se sentiam durante esse processo a resposta foi “não”.

 

Como a vida, nossas relações afetivas estão em constante transição!

Algumas pessoas parecem ignorar este fato. Gostam de acreditar que as pessoas, e por extensão suas relações afetivas, são imutáveis; acabam cristalizando a ideia que têm delas (pessoas e relações) naqueles ditos “momentos mais felizes”, na maioria das vezes idealizados (quando se conheceram; o primeiro beijo; uma viagem romântica…). Por isso é frequente ouvir que a outra pessoa “não é mais a mesma”; ou “ele mudou muito desde que o conheci”.

Para se ter consciência sobre essas constantes transições, e aprender a lidar com elas, é preciso aprender a estar plenamente presente em cada conversa e exercitar a escuta compreensiva, tanto do outro quanto de si mesmo. Só assim podemos perceber as mudanças e, em alguns casos, reorientar os caminhos, evitar distanciamentos e fazer melhores escolhas.

Quando estamos presentes de maneira plena na relação é possível conhecer melhor a outra pessoa, escolhendo de forma consciente estar do seu lado, do jeitinho que ela está (naquele momento da vida – rs).

A escuta compreensiva envolve sempre se perguntar “e o que mais?”, para tudo o que é dito pelo outro, a fim de ouvir aquilo que não é dito em palavras; a verdadeira mensagem e sentimentos por detrás dos argumentos. E um excelente exercício é começar esta escuta por si mesmo. Ouça-se! Será que as palavras ditas por mim representam mesmo o que sinto; ou estou esperando que a outra pessoa adivinhe minhas emoções?

A paixão pode ser transformar em amor, que pode se transformar em afeição, que pode criar expectativas ou não; mas o mais importante é que possamos reconhecer todas essas transições para que ao “final” continuemos sendo a melhor versão de nós mesmos e possamos escolher conviver com aquilo que a outra pessoa pode nos oferecer do seu melhor.

Já dizia o ditado: “Você pode escolher o marido; mas o ex-marido não!” (o que vale para esposa e ex-esposa também!!!); mas a maneira como nos relacionar com cada pessoa, em cada fase da relação afetiva, essa decisão ainda depende de nós!

 

Rafael Giuliano,
Terapeuta e Conscienciólogo Humanista

* As histórias compartilhadas neste blog não expõem seus personagens reais que conhecem, de maneira consciente, que suas experiências podem contribuir com a reflexão de outras pessoas.

7 comentários sobre “Separação Conjugal – término ou transição?

  1. É fundamental dialogar. Mas, hoje em dia não está fácil encontrar alguém que tenha essa “escuta compreensiva”, talvez porque ao invés de darmos prioridade para a voz emocional com a qual o corpo e os sentimentos falam, e buscarmos traduzi-las em palavras, preferimos “enlouquecer” escutando as duas vozes mentais que se degladiam dentro de nós, como um jogo de rivais. Às vezes o melhor é dar-se o tempo do silêncio, da meditação. Para depois comunicar o sentimento. Obrigada 🙏 pela sua escrita.

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  2. Separação? – tema denso, porém necessário principalmente em uma sociedade que ainda nos ensina o “felizes para sempre”, desde muito cedo. Além do “até que a morte nos separe”, que nos leva ao medo e frustração de não chegar a esse Olímpio, que muitas vezes, nos é cobrado como êxito e sucesso na vida humana e social.
    Da mesma maneira, que hoje é muito disseminadas as frases “se não der certo, parte pra outra”; “que seja eterno, enquanto dure”, mas em nosso íntimo, sempre buscamos manter as tradições do único e eterno amor.
    Mas aceitar que chegou ao fim, que é hora de partir para a outra, nem sempre é aceitável para uma das partes, porque sempre vai ficar algo a ser dito, a ser vivido (as expectativas) que sempre são construídas e que nunca irão acontecer, visto que são os ideais de um e não a obrigatoriedade de serem cumpridas pela outra pessoa.
    O que nos leva também a colocar sob a responsabilidade do outro os nosso valores e motivos de felicidade – quando na verdade a autoria desse sentimento e sua intensidade cabe a nós e somente a nós e não as ações e projeções do outro sobre nós.
    Às vezes o partir é doloroso, mas também necessário para o reencontro consigo, pois numa relação acabamos deixando, muitas vezes, de ser o indivíduo para virar parte de um par e vivenciando os prazeres e os dissabores dessa comunhão.
    Muitos indagam as mudanças (para o bem ou para o mal) , mas recordo em um vídeo de um casamento em que o rapaz dizia a esposa “espero que você mude a cada dia, para que eu possa também me tornar melhor” e por incrível que possa parecer, nunca estamos preparados para que o outro mude, porque como foi dito “cristalizamos e tentamos imortalizar” momentos e atitudes. – No entanto, no amor e na guerra, as mudanças também são estratégias para tentar manter ou aperfeiçoar as ações que levem ao êxito, mas nem sempre é compreensível aos olhos dos envolvidos tais ações.
    Apesar de doloroso, fechar o ciclo não significa que falhou, apenas aprendeu que a vida também é feito de vivências que levam a um propósito de conhecer as alegrias e mazelas de ser humano acima de tudo.

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  3. Nunca é fácil romper, pois os sequestro emocional desconecta a razão antes mesmo que possa alcançar o racional. Deixamos a dita razão de lado e agarramos pontas soltas de um “se”, de um “talvez” quaisquer que nos alimentem com alguma esperança de sair do desconforto da perda. Tenho a impressão que é justamente o entendimento dessa contradição entre razão e sentimento a chave para a aceitação de que o “mundo perfeito” é uma ideologia que ignora a realidade do mundo natural (esse que conhecemos com nossas limitações). Perfeito porque acreditamos que este exista assim, sempre dentro das nossas expectativas de felicidade plena, de um conceito de felicidade idealizado.

    É como um “unicórnio”, ele existe sim, mas somente num “mundo perfeito” das ideias humanas. Não tem nada de errado em acreditar em unicórnios ou no que idealizamos para as relações que nos permitimos viver. Mas é necessário ter em mente que cada um tem seu “mundo perfeito” e acredita ou não no seu próprio unicórnio e, portanto, na sua forma ideal de se relacionar (amar). Não é simples compreender a subjetividade inerente ao plano das ideias humanas.

    Enquanto isso, o tempo eterno idealizado segue passante. Já e o tempo natural de cada um…

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