Namoro ou Amizade?

Ok, talvez não seja a pergunta de um milhão, mas ela revela muito mais do que uma simples dúvida sobre o tipo de relacionamento entre duas (ou mais) pessoas. Perguntar se é namoro ou amizade envolve duas questões fundamentais e que estão intimamente ligadas em nossas relações afetivas: a sensação daquilo que chamo de estabilidade nominal e aquilo que podemos chamar da ideia de controle sobre as regras (do “jogo”).

Pode parecer pesado, eu sei; mas uso aqui as palavras “estabilidade” e “controle” sem nenhuma pretensão de induzir a crítica; apenas uma constatação natural. Veja esse exemplo…

“Quando cheguei na festa da empresa não sabia como apresentar ele para meus colegas…”; foi a frase que que ouvi de uma jovem há uma semana. O relacionamento que começou há cerca de dois meses ainda não recebeu uma classificação (“apesar de estar sendo ótimo!”). “Imagina só se a gente for passar as festas juntos! Os parentes vão querer classificar o que nós dois temos…” – disse ela em meio às gargalhadas. Isso demonstra a naturalidade com que parecemos precisar denominar as relações para conseguir compreendê-las. Algo que pode surgir dentro da própria relação ou ainda na forma de uma cobrança comum no ciclo social do casal.

Quando converso com pessoas que estão em busca de uma relação amorosa, a grande maioria fala do desejo de encontrar uma espécie de “ponto de equilíbrio” para si mesmas; e acabam sempre voltando à ideia do “par perfeito” (tema de um outro texto, lembra?). Surge a descrição de “alguém com quem compartilhar bons momentos, boas conversas e bom sexo (é claro!)”. Tudo isso com a solidez de um “relacionamento sério” e a segurança de “saber com quem estou me relacionando”.

Essas duas palavras (solidez e segurança) são as bases para a estabilidade idealizada pela grande maioria; e elas parecem ganhar significado por meio do nome que damos às relações. Isso porque reconhecemos, ou queremos acreditar, nos significados compartilhados socialmente para expressões como relacionamento sério, namoro, noivado e casamento.

Mas não se trata apenas de “dar nome aos bois” (e/ou vacas, como já ouvi! – rs); a sensação de estabilidade que advém do nome está diretamente ligada à ideia do controle sobre as regras do jogo. É como se, conhecendo o nome correto ou tipo da relação, eu soubesse automaticamente quais são as regras, como devo me comportar e o que posso esperar.

Para compreender melhor essa faceta, voltemos à jovem cujo relacionamento começou há dois meses. Perguntei a ela como se sentia a respeito de ainda não ter um nome para “classificar” a relação atual; sua resposta foi bastante interessante: “Na maioria das vezes eu não me preocupo; especialmente quando estamos apenas nós dois. É que não faz sentido; não preciso chamar ele de outro nome, além de um ou outro apelido carinhoso que surge naturalmente… Quando estamos com amigos a explicação simples é: ‘estamos nos conhecendo’. Mas confesso que não saber bem o que é esta nossa relação me deixa em dúvida sobre como agir. Sabe como é!? Quando você sabe em que tipo de relação está fica mais fácil saber agir”. Será mesmo?

Ela acredita, assim como tantas outras pessoas, que essas denominações comuns trazem consigo também uma espécie de “Acordo Pré-definido”; o que deveria facilitar no fim das contas. Assim, se você está num relacionamento sério, namoro, noivado ou casamento já deveria saber como se comportar, o que pode ou não fazer, e quais liberdades estão fora de questão (Game Over – como diz o ditado da camiseta). Mas, na verdade, nada substitui o poder do diálogo.

Sim, as relações afetivas não são mais as mesmas; e as denominações clássicas, por assim dizer, podem não mais fazer sentido hoje, como pareciam fazer há algum tempo atrás. Porém, isso não significa que as relações em si perderam o propósito. A verdade é que a liberdade que temos hoje traz também a responsabilidade de assumirmos o papel como autores e protagonistas conscientes das novas histórias de amor.

Já não se trata do nome que possamos dar ao tipo de relação que compartilhamos com a outra pessoa. É imprescindível que possamos nos sentar e conversar; estabelecer nós mesmos os termos deste acordo, de maneira consciente; escolhendo aquilo que trará valor e respeito um ao outro, sem prejudicar nenhuma outra pessoa.

Na dúvida, você pode se inspirar nos Imperativos Categóricos de Kant para criar os termos deste acordo: (1º) Universalize as regras – portanto, o que vale para um valerá também para o outro; e (2º) Trate as pessoas como fins em si mesmas, não como um meio para alcançar algum desejo (seja a festa dos seus sonhos, o respeito da família ou ainda a inveja daquela sua prima de segundo-grau). Ah, e vale lembrar de um importante ditado popular que diz: quando UM não quer, DOIS não fazem!

No fim das contas, entre namoro e amizade, escolha sempre ficar com o melhor dos dois mundos.

 

Rafael Giuliano,
Terapeuta Afetivo e Conscienciólogo Humanista

2 comentários sobre “Namoro ou Amizade?

  1. No fundo, bem no fundo… o que todo ser humano quer eh um relacionamento seguro, um relacionamento sincero. Se eh amor, amizade, paquera, ficante.. não
    Importa. A base de qq relacionamento eh a sinceridade, saber o que vc quer e pode fazer pelo outro. Em tempos descartáveis, ser sincero não eh tão importante!

    Curtido por 1 pessoa

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