Ressignificando a ideia do “par perfeito”.

“Quero algo sério, mas está difícil encontrar alguém que valha a pena”; foi assim que começou minha conversa com Josiane*, uma jovem de 33 anos que visitou meu consultório, dia desses. Quando perguntei a ela qual a definição de “valer a pena” seus olhos reviraram, como quem buscava por algo no fundo da memória, enquanto recitava uma longa lista de adjetivos dignos de um Super-Humano. As expectativas eram altas; ela idealizou os gostos, comportamentos e o biotipo físico do seu dito “par perfeito”.

Não há nada de mal em sonhar um pouco (rs), afinal posso dizer que conheço minhas preferências; aquilo que me desperta mais ou menos desejo; o risco está em deixar de apreciar a outra pessoa pelo que ela é. Quando colocamos muitos filtros baseados em nossas idealizações ignoramos vários “detalhes” importantes, dando atenção apenas àquilo que valoramos. Isso pode durar semanas; ou anos.

Numa rápida conversa com diferentes casais sempre surgem reclamações em relação às mudanças de personalidade ou comportamento. Mas quando exploramos a biografia das duas pessoas fica evidente que parte daquelas características, agora tão criticadas, já faziam parte delas.

É muito comum que ao imaginar o tradicional “par perfeito” acabamos transferindo para a outra pessoa grande parte, se não a totalidade, da responsabilidade por criar uma relação perfeita. Sem perceber, nos colocamos num papel de passividade, literalmente esperando que nossos desejos e necessidades sejam atendidos pelo outro.

De volta ao diálogo com Josiane, propus ressignificar sua ideia de “par perfeito”. Primeiro, perguntei à ela qual o significado da ideia de “par”; quando percebi sua expressão de dúvida, puxei o celular e acessei um dicionário online onde li a seguinte definição: “par – substantivo masculino; conjunto de duas pessoas”. Então continuei: “se par é o conjunto formado por duas pessoas, definir o “par perfeito” requer falar daquilo que as DUAS PARTES devem, ou podem, somar na construção da relação; não apenas aquilo que se espera do outro”.

Juntos, imaginamos seus interesses numa potencial nova relação; anseios e vontades que pudessem ser compartilhados com outra pessoa. Josiane fez um breve inventário apreciativo dos próprios atributos; daquilo que tem de melhor a oferecer.

Ao me perguntar quais características ela deveria procurar na outra pessoa, sugeria que ela se concentrasse simplesmente nos interesses comuns e na disposição do outro em compartilhá-los.

Quando encerrei a sessão e me levantei, ela permaneceu sentada, olhando para o caderno onde costuma escrever as reflexões de nossos diálogos, então disse: “Isso não vale só para minhas relações amorosas, não é?”

Respondi à ela que há vários “pares perfeitos” que nos rodeiam; diferentes relações afetivas que também podem sofrer se lançamos sobre elas nossas expectativas. Por isso, ao idealizar melhores amigos, confidentes ou colegas de trabalho é fácil nos frustrar. Mas ao focar nos interesses comuns e na disposição de ambos aprendemos a valorizar ainda mais nossas relações afetivas.

E você, como reconhece um “par perfeito”?

 

Rafael Giuliano,
Terapeuta e Conscienciólogo Humanista

* Nome fictício dado à Persona que representa diferentes clientes que compartilham muitas semelhanças nas sessões da Terapia Afetiva.

2 comentários sobre “Ressignificando a ideia do “par perfeito”.

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