Por que Terapia Afetiva e não Terapia de Casal?

Lembro da expressão daqueles olhos curiosos que analisavam meu consultório. O espaço simples possui apenas uma poltrona para mim e um pequeno sofá de dois lugares para receber as pessoas; além da escrivaninha onde trabalho em meus textos e uma pequena estante de livros. Ela parou diante do sofá e, sem olhar para mim, perguntou se deveria se sentar. Foi assim que começou aquela sessão.

Assim que se acomodou no sofá, disparou a pergunta mais comum nessas ocasiões: Você recebe muitos casais aqui?; me solidarizo com essa vontade de saber se há “outras pessoas na mesma situação” (como ela mesma se referiu). Respondi que sim; meu trabalho envolve atender diversas pessoas, em diferentes relações afetivas. A expressão (“relações afetivas”) provocou uma careta.

Como outras pessoas, Patrícia* procurou “ajuda” apenas depois de “já ter feito tudo o que podia”. A “Terapia de Casal” era a última alternativa. No início teve dúvidas, achando que o esposo não a acompanharia; mas para sua surpresa ele aceitou o convite. Surpresa maior foi quando, na primeira entrevista com o casal, propus que eu conversasse inicialmente com cada um dos dois em separado. Ficou acordado que Patrícia viria primeiro; e lá estávamos, sentados frente a frente.

Quando perguntei a ela com se sentia naquela tarde logo vieram relatos sobre o esposo, seus comportamentos e “manias”; críticas pela ausência de carinho e desatenção às necessidades dela. Eu a interrompi e perguntei, mais uma vez e delicadamente, como ela se sentia naquela tarde; veio então a cara de perplexidade, depois o suspiro e o choro. Foi nesse ponto que ela percebeu que não se tratava de falar do outro, mas dela; seus sentimentos e interesses.

Conversamos por quase meia-hora. Ouvi sua história, as primeiras experiências românticas até conhecer seu esposo, os “altos e baixos” do casamento, os diversos motivos de risos e choros. No fim, ela se sentia bem e tinha mais claro o objetivo com a terapia; já não se tratava de reclamar e sim reconhecer a si mesma e seus afetos para então compreender o outro e a relação entre os dois.

Já próximo do fim da sessão, ela me perguntou por que o nome Terapia Afetiva e não Terapia de Casal? Respondi se tratar de uma escolha consciente, talvez um preciosismo linguístico da minha parte; a Terapia Afetiva compreende tanto a dinâmica entre o casal quanto a individualidade de cada um nas suas relações de afeto. É reconhecer que não se trata apenas duas pessoas e sim toda uma rede de conexões afetivas que às vezes precisam, e merecem, ser ressignificadas.

Quando nos despedimos, Patrícia me olhou fixamente e disse estar curiosa sobre como seria minha conversa com seu esposo; mas que, de qualquer forma, ela já se sentia bem melhor por saber quais eram suas verdadeiras necessidades e o que realmente a incomodava na relação.

Os conflitos nas relações conjugais sempre existiram; e o fato disso começar a aparecer com maior frequência nos espaços terapêuticos é algo positivo, pois indica que as pessoas passaram a ter consciência dessas “situações” e começam a assumir seu protagonismo na busca por uma resolução. Entretanto, é imprescindível que durante todo o processo seja respeitada a singularidade dos envolvidos.

Olhar para o casal como um ente único, indivisível, põe em risco todo o processo de mediação e resolução do conflito. O casal precisa se reconhecer como DOIS INDIVÍDUOS que somam e multiplicam, ao invés de dividir.

Um aprendizado sobre nossos afetos que ainda precisamos construir juntos.

 

Rafael Giuliano,
Terapeuta e Conscienciólogo Humanista

* Nome fictício dado à Persona que representa diferentes clientes que compartilham muitas semelhanças nas sessões da Terapia Afetiva.

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